Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O Instituto Superior de Ciências do Trabalho, ISCTE, para os amigos, fez um estudo chamado Necessidades em Portugal. Como sabemos, no nosso país os estudos e as sondagens estão muito desacreditados. Contudo, como fazer omeletas sem ovos é a nossa especialidade, falemos deste estudo. O Público chegou à conclusão de que os portugueses são pobres, estão desmobilizados mas dizem estar felizes. Não vou vos maçar com as percentagens que deram lugar a esta conclusão, a meu ver apressada. No entanto, vale a pena falar dela. Que os portugueses são pobres nem é preciso grande coisa para chegar aí. Estarmos desmobilizados já é outra cantiga. O facto de o mercado do trabalho não estar nada bem aqui como no resto do mundo não incentiva ninguém a mudar de vida. A falta de dinheiro e segurança no sistema financeiro também não ajuda para andar por aí a fazer projecto megalómanos, mediolómanos nem microlómanos. O que significa que não estar mobilizado para mudanças não é um defeito: é prudência. Aliás, a palavra certa é que os portugueses estão imobilizados pela realidade. A prova está nas opiniões que têm do seu trabalho. Todos querem mudar de emprego mas não fazem nada para isso. Acredito que esta imobilidade é forçada pelas circunstâncias. A conclusão seguinte é só aparentemente paradoxal: os portugueses estão felizes. A felicidade é um dos estados mais difíceis de conseguir. Normalmente o inimigo da felicidade é a insatisfação e a consequente convicção de que merecemos mais do que temos. Para sermos felizes temos de sentir o contrário: sentir que temos mais que merecemos. Ter o que merecemos já é bom. Termos mais é a gloria. É por isso que dadas a realidade e as circunstâncias, quando os portugueses maioritariamente afirmam que são felizes, não é uma piada filosófica chamada paradoxo, é um acto de sabedoria. Se é verdade que as nossas condições de vulnerabilidade sócio-económica são mais graves que muitos dos nossos parceiros europeus, também é verdade que nós não andamos a blasfemar porque os holandeses têm melhor nível de vida ou por serem mais altos que nós. No fundo, o povo português é de uma estirpe em extinção. Aquela que sabe que mesmo pobre e mal protegido, é capaz de ser feliz. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:55
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Comentários:
De Blondewithaphd a 30 de Junho de 2009 às 14:40
Certo, mas eu até queria o nível de vida dos holandeses, homessa!


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