Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Foi largamente divulgado pelos meios de comunicação que Lubna Ahmed al-Hussein, jornalista sudanesa, poderá ser condenada a uma pena de quarenta chicotadas por se vestir de forma “indecente”. Lubna encontrava-se num restaurante na capital sudanesa, Cartum, quando as forças policiais prenderam todas as mulheres que usavam calças. Não vou insistir no meu repúdio a esta crueldade inexplicável da charia, a lei islâmica. Também não vou insistir que só os fanáticos muçulmanos teimam em aplicar esta lei e que há muçulmanos civilizados e que há coisas mais relevantes na Fé que se fazer explodir e nos tempos livres apedrejar adúlteras ou chicotear impúdicas e blá, blá, blá. Mas como não sei se no Sudão ouvem a Antena 1, gostaria de tentar compreender este conceito de castigar a alegada indecência. Acredito que a ideia de pudicícia, que é a qualidade de ser pudico, possa variar nas diversas culturas. Imaginemos uma freira vestida a rigor a ser vista com lascívia entre os habitantes indígenas dessas tribos em que as mulheres passam os dias nuas. Não acredito que esbofeteassem as freiras por isso. Também posso aceitar que se Giselle Bundchen se passear de biquini pelas ruas de Cartum ou de Tikrit ou de Shiraz isso produza algum confrangimento. Podem ficar descansados que se fosse em Lisboa também provocava. Mas se fosse num país islâmico era muito mais inteligente oferecer-lhe uma gabardina ou levá-la a uma loja chique e oferecer-lhe uma burka de marca e dizer-lhe que era um presente do exército democrático islâmico de liberação, da célula Al-Colá. Mas este é um exemplo evidente. No caso de Cartum e da rapariga de calças, pergunto-me quem terá sido o bufo que disse ao polícia: “Eh pá, na pastelaria vi umas miúdas de calças! Vou para o inferno! Vou para o inferno!” E o polícia, muito cool, a arranjar o cinto com uma mão e a acariciar as barbas com a outra, a responder: “deixa-a estar que com quarenta chicotadas ela chega lá primeiro que tu”. Ah, sharia, sharia… O que tu queres sei eu! Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:22
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