Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

A campanha da linha SOS Criança Desaparecida, do Instituto de Apoio à Criança, IAC para os amigos, lançou um conjunto de recomendações para estas férias. Alguns jornais, talvez à procura de novos leitores, publicaram títulos comerciais ou de revista à portuguesa como: “não deixem os vossos filhos andar nus nas praias”. O IAC – peço desculpa pela sonoridade vomitiva desta sigla, mas a culpa não é minha – distribuiu uma brochura, que, de facto, diz isso. Deve ser por causa dos perigos da exposição ao sol, pensei eu na minha infinita inocência. Mas não era por isso. A razão deste conselho é a seguinte: “pode estar a expô-lo a olhares indiscretos/maliciosos". Isto fez-me lembrar aqueles casos de raparigas violadas, em que nos tribunais, e não só, são responsabilizadas por causa da vestimenta ou da atitude que suscitam um consensual “estava a pedi-las”. Mas o IAC, peço desculpa novamente pela fonética, continua o seu raciocínio e insiste na provocação ao crime pelas criancinhas caso de se vistam de cores garridas. “Vestir os miúdos de cores vivas antes de um passeio em grupo é uma forma de garantir que eles se distinguem entre os demais.” A prevenção da pedofilia passa por termos não apenas as nossas crianças vestidas na praia, mas ainda por cima camufladas de crianças indesejáveis para os pedófilos que por ali andam. Como se fosse pouco, a IAC ainda recomenda que se ensine às crianças que gritem no caso de serem abordadas por um desconhecido. Imaginemos um mundo em que os nossos filhos nos obedeçam. Agora, vejam uma criança que obedeça aos pais sempre que um desconhecido é simpático ou apenas educado. Agora oiçam a gritaria. Se calhar, estas recomendações funcionam. O preço vai ser gerações de pessoas paranóicas e histéricas vestidas dos pés a cabeça em tons bege e castanhos. Mas, sobretudo, de gente que vai crescer com a ideia de que tudo o que lhes possa acontecer de mau acontece por sua culpa. Acho que foi São Bernardo que disse que de boas intenções está o inferno cheio. O IAC já deu o seu contributo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:02

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