Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Duvido que haja muitos estrangeiros a ouvir-me, por isso vou ser sincero. Eu sei que temos a maravilhosa palavra e o conceito de saudade, mas aqui entre nós, nunca percebi a diferença entre a tal saudade e aquilo a que os estranjas chamam nostalgia. Deve ter havido alguma diferença que se perdeu no tempo. Saudade vem do latim e nostalgia do grego, está bem, mas deve ser como “chá” e “tea”: dois nomes diferentes para a mesma infusão. Digo isto porque os últimos acontecimentos no meio financeiro internacional me provocaram um ataque de saudade ou nostalgia pelo século XX. Como sabem o histórico sigilo bancário suíço em breve vai ao ar. Os Estados Unidos e a Union Bank of Switzerland, UBS, fizeram um acordo em que este banco suíço se comprometeu a revelar os nomes de cerca de cinco mil norte-americanos com contas secretas no país. Isto só pode ser o começo do fim de uma tradição, de um modo de vida, de uma história que se confunde com o mito. Estou à vontade porque nunca tive uma conta na Suiça. Mas isto não quer dizer nada. Também tive pena quando o muro de Berlim caiu. Sei que foi bom e tinha de ser mas isso não apaga a saudade da Guerra-fria, quando tudo era mais simples e a malta de Leste fugia para cá. Também é bom que a China se tenha dignado a entrar no mundo real. Mas era ainda melhor quando a víamos como o perigo amarelo, o isolacionismo total, que misturava ideologia com exotismo. Agora são uns selvagens capitalistas do pior. Com o futuro fim do segredo bancário acontece-me o mesmo. Poderá será bom de uma qualquer perspectiva racional e honesta, mas não me alegra. A ideia de que existia um lugar onde as regras eram outras, que tanto o ladrão como o honesto trabalhador eram honrados com o mesmo tratamento e discrição, tem alguma coisa de contos de piratas à antiga, com heróis e vilãos a confiar no mesmo funcionário bancário e a nunca serem decepcionados por ele. Só vos digo que vai ser muito difícil escrever policiais e histórias de espiões neste século XXI. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:05
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