Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

O desabamento da arriba da praia Maria Luísa foi um acidente horrível. Acontecimento este que, obviamente, levou a que fosse aberto um inquérito para apurar responsabilidades. Daqui a algum tempo teremos um processo judicial contra a incapacidade de a Geologia prever um desabamento ou a pedir a condenação das vítimas por não terem seguido os avisos de perigo de desmoronamento. Parece-me óbvio que há acidentes e acidentes. Aquilo que aconteceu na ponte de Entre-os-rios é um acidente provocado pela incúria e a pobreza das instituições responsáveis pela manutenção da ponte. Podia ter sido evitado. O que aconteceu na praia Maria Luísa era uma possibilidade, mas habituámo-nos a achar que seria pouco provável e isso é normal. Se começássemos a proibir drasticamente a permanência em lugares perigosos, a população de Lisboa devia toda ela mudar-se para o Ribatejo. Aquando do terramoto de Lisboa em 1755, a Europa dividiu-se entre os que acreditavam que tinha sido um castigo divino e aqueles que viam na tragédia a prova da ausência de Deus. Houve, claro, aqueles poucos que, não tomando partido, se limitaram a verificar a ignorância da ciência. Neste sentido, a coisa não mudou muito. Se um terramoto continua a ser pouco previsível, ainda menos é um desabamento proporcionalmente minúsculo de uma arriba perdida no Algarve. No entanto, há gente que pede a cabeça dos culpados. Sem ser pessimista, nunca tive confiança nos tectos. Mesmo assim durmo debaixo de um. Ainda por cima tenho uma ventoinha pendurada no quarto. Quando estou deprimido penso que aquilo me pode cair em cima. Quando estou menos deprimido, imagino que a ventoinha se desprende do tecto e, como num filme de terror, me corta na sua inércia cinética. Há anos que acordo sempre de manhã sem ter acontecido nada disso. Mas se acontecer faço minhas as palavras do senhor Ministro do Ambiente, Nunes Correia, que disse sensatamente que a responsabilidade é dele mas isso não significa que a culpa seja também dele. Concordo completamente. Se acontecesse sobreviver a ser guilhotinado pela minha própria ventoinha, diria que a culpa não foi minha. Só tive pouca sorte. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:04
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO