Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Todos se devem lembrar de Lubna Hussain, a jornalista sudanesa que, juntamente com mais doze raparigas, foi detida no Sudão por estar de calças. Este delito é punido com quarenta chicotadas. Penso que quase toda a gente terá tido a mesma reacção: “que horror!”, “coitada da rapariga”, “que gente!”, “selvagens!”, e assim por diante. Três meses depois, o tribunal sudanês deu o veredicto e na terça-feira passada Lubna foi libertada contra a sua vontade. Ela negou-se a pagar a multa a que foi condenada, mas o sindicato de jornalistas lá do sítio pagou-a por ela. As outras doze não tiveram a mesma sorte nem o mesmo sindicato nem dinheiro e foram mesmo chicoteadas. Mais uma vez “que horror!”, “coitadas das raparigas”, “que gente!”, “selvagens!”. Contudo, pouco podemos fazer para mudar a situação. Mas podemos sempre piorá-la. Explico como. A notícia do incidente de Julho no Sudão foi divulgada assim: as raparigas estavam de calças. Assim foi dito pelo mundo inteiro com jornais online. O jornal Público de ontem adicionou um pormenor, julgo eu, exclusivo do jornal. Dizia assim: “A jornalista sudanesa julgada em Cartum por ter usado em público umas calças consideradas muito justas e uma blusa transparente saiu da prisão”. Não sei se por causa de uma má tradução, de uma interpretação religiosa ou imaginação do redactor, mas que de repente Lubna Hussaim passou de heroína das mulheres abusadas pelo machismo islâmico a mulher de má vida ocidental, lá isso passou. Juro que não encontrei nenhum jornal estrangeiro ou nacional que fizesse referência ao corte insinuante das calças nem à transparência da blusa. Mas se foi assim como diz o jornal português, não faltará quem pense que Lubna estava a pedi-las. E é muito bom que se a gaja se tenha safado com uma multinha e ainda por cima paga pelo sindicato. Ainda bem que em Portugal temos um jornal que nos abre os olhos. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:46
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