Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Eu sei que é difícil de acreditar, mas admito que às vezes as pessoas inteligentes me confundem. Isto acontece-me sempre que oiço declarações que me fazem duvidar se são irónicas ou se são estúpidas. O exemplo mais recente são as afirmações do ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos. Alan Greenspan considerou que a actual crise mundial é das que "acontecem de século a século. A menos que se altere a natureza humana, haverá outras crises e nenhuma será parecida com esta, porque duas crises nunca tiveram nada em comum, excepto a natureza humana". Suponhamos que esta é uma frase profunda que nos diz numa atrapalhada ironia que desde que haja seres humanos haverá sempre alguma bronca das grandes e temos de aprender a viver com isso. Até aceito um pensamento destes de uma pessoa experiente e de reconhecida sapiência. Podia mesmo dizer que com estas poucas palavras sintetizou o motor da história da humanidade que é a própria natureza humana. Mas concordemos que é exageradamente redundante, já para não dizer pateta. Sempre que se iniciasse uma guerra ou se cometesse adultério podíamos citar Greenspan: “faz parte da natureza humana”. Também pode ser dita por Oliveira Costa do BPN dizer que tudo o que fez foi para dar um futuro melhor aos seus filhos, coisa que evidentemente também faz parte da qualidade de um ser humano. Quando uma conclusão se apresenta como universal e pode ser aplicada para o bem e para o mal tem alguma coisa de errada. Que a natureza humana é gananciosa e egoísta não só é provável como há gente que até afirma que está nos genes. Mas explicar o mal como parte inevitável da humanidade é uma maneira de desapreciar o bem e, mais importante ainda, de desresponsabilizar os sacanas naturalmente humanos. É claro que se Alan Greenspan diz o que diz com ironia, então afinal é um grande malandro. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:47
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