Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Na época pré-Internet, quando queríamos fechar uma discussão, dizia-se: “esta escrito, vem nos livros”. Esta expressão caiu naturalmente em desuso porque, como sabemos, nem tudo o que está escrito é verdade e muito do que se publica é uma porcaria. A chegada da Internet redobrou o desprestígio do argumento “está escrito”. Contudo, de vez em quando, temos a possibilidade de rematar a conversa com aquela coisa do “vem nos livros”. Sobretudo porque cada vez se lê menos livros e mais facebook e coisas do estilo. Lembrei-me disto por causa de um livro, que aliás não li, de Vasco Ribeiro, apresentado no Porto, baseado num estudo (também seu) sobre a influência das fontes na construção do noticiário político em Portugal. Vasco Ribeiro concluiu que "só um terço do produto jornalístico dos diários estudados é produzido por iniciativa das redacções" e que mais de 60% das notícias analisadas resultaram da acção de assessores de imprensa, relações públicas, consultores de comunicação, porta-vozes e outros. É uma conclusão que mais ou menos todos sabíamos, mas nunca é demais lembrar. A parte interessante deste tema tem que ver com porque é que 60% da informação não é informação mas declarações mensagens ou denúncias de “fontes bem informadas”. Não podemos afirmar que a causa seja apenas pressão feita pelas partes interessadas. Também não podemos acusar toda uma classe profissional de preguiça. Explicar o problema com a falta de dinheiro para pagar uma investigação independente feita por jornalistas, tampouco é suficiente. Claro que somos tentados a concluir que é um pouco de tudo isto, mas assim não tem graça. Quanto mais explicações dermos para compreendermos uma realidade, maior é a nossa tolerância e menor a nossa responsabilidade. Atrever-me-ia a sugerir que é uma questão de perspectiva. Para o jornalismo nacional, a informação em si não é o mais importante: mais tarde ou mais cedo a verdade virá ao de cima. O que importa é aquilo que interpretamos a partir da notícia, seja ela falsa, verdadeira ou exagerada. Alguma coisa terá necessariamente de significar e aquele que acertar primeiro chega a chefe. É por isso que há tanta opinião em tudo quanto é media. Comentar é mais criativo e dá mais gozo que informar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:44
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