Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

A presidência da República emitiu ontem uma nota a esclarecer que Cavaco Silva seguiu “a tradição” no 5 de Outubro de "o Presidente não estar presente nas cerimónias na Câmara de Lisboa, sempre que esta data precedeu a realização de eleições autárquicas ou legislativas em Outubro”. A nota lembra as três ocasiões em que outros presidentes também não discursaram na CML. Esta declaração não teria importância não fosse o Presidente já ter dito isso antes, durante e depois do discreto acto realizado em Belém no aniversário da República. Isto não impediu muitos analistas e políticos de ver nesta decisão um mau sinal das relações entre o governo e a presidência. Que Cavaco não grama Sócrates nem Sócrates grama Cavaco, isso já toda a gente sabe. Mas pela nossa saúde, a necessidade de explicar reiteradamente as decisões tomadas começa a moer-me o juízo. Para os que estão do lado de fora dos centros de decisões o mais atractivo da política é a especulação. Se nos tiram a ambiguidade, tiram-nos tudo. Tornamo-nos meros repetidores do óbvio. Ou, o que é pior, tornamo-nos sentenciosos ou proféticos. Qualquer uma destas opções é péssima. Quando as afirmações presidenciais deixam de ser oraculares, ou seja, quando não nos obrigam a pensar e a interpretar, leva-nos a perguntar afinal o que estamos nós aqui a fazer. Quando a política se torna óbvia, só podemos fantasiar e inventar. Isto é mau. Um exemplo claro é a última declaração do Presidente. Ao tornar-se um pedagogo e ao querer esclarecer as suas posições ou mostrar a sua interpretação pessoal de determinados factos, Cavaco Silva perdeu o direito a ser enigmático. Direito que só o Presidente da República pode exercer. Quando ele próprio se interpreta, deixa-nos sem oráculo. E isto é péssimo. Não é preciso ter um Presidente para estar a ouvir justificações. Disso não falta em Portugal. Chamam-se analistas políticos. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:51
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