Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Finalmente o novo governo tomou posse na sempre solene embora por vezes divertida cerimónia no Palácio da Ajuda. Como era de prever todos disseram o que deviam dizer. O Presidente mostrou a sua disponibilidade para colaborar com o novo governo, mas salvaguardando as suas competências, e o Primeiro-ministro salvaguardou o seu programa de governo pedindo a colaboração de todos para não limitarem as suas competências. Está certo. Esta previsibilidade do discurso dos dois órgãos de soberania confirma que esta legislatura vai ter a excitação de um jogo de xadrez por correio normal com a minha tia. Quem ouviu os comentários dos especialistas à tomada de posse, percebe o que quero dizer. Uma vez esgotado o tema da paz e amor entre os órgãos de soberania passaram a falar do valor simbólico da gravata encarnada de Sócrates ou o manifesto de pobreza franciscana do Presidente, quando assinou a acta da tomada de posse do novo governo com uma caneta de supermercado. Se não conseguiram fazer melhor, é porque não há mesmo nada a fazer. O tédio da política nacional vai atingir dimensões nunca antes alcançadas. Parece inevitável que a constituição do actual parlamento obrigará todos a usar paninhos quentes para não fazer ondas. Não sei se percebem a dupla metáfora. Os paninhos quentes são para a delicadeza a que estão obrigados nas discussões e nas votações parlamentares. Não fazer ondas significa que a oposição vai impedir o governo de se afogar sem, no entanto, se afogar a si própria. Prevejo uma legislatura civilizada e cheia de formalidades. O mínimo erro da oposição pode levar a que o governo tenha uma boa desculpa para dar de frosques. Um erro do governo pode fazer com que vejamos Sócrates a defender leis que não são nada a cara dele. Como, por exemplo, uma das poucas leis em que os comunistas e os bloquistas estivessem de acordo. Ou uma lei do CDS que exigisse um polícia em cada esquina, ou uma lei do PSD que… Bem, quase todas as propostas do PSD, à excepção das obras públicas, podem ser a cara de Sócrates. Mas mesmo assim, isto pode dar uma ideia da cortesia e urbanidade que vão ser necessárias para termos um governo nos próximos quatro anos. Chamem-me hippie ou chato, mas eu gosto assim. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:48
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