Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A Direcção-Geral da Administração da Justiça Um funcionário fez uma pergunta por e-mail a um funcionário judicial. Como a pergunta tinha uma resposta óbvia, o funcionário acabou o texto com a expressão "Daaa". Teve graça, mas foi condenado com uma repreensão, suspensa por dois anos, por ter violado os deveres de correcção. Infelizmente, o funcionário engraçado recorreu e o caso chegou ao Conselho Superior da Magistratura. No recurso, escrito com ironia, o funcionário ainda se refere à expressão “Daaa”, como sendo as iniciais de Dificuldade, Admiração, Angústia e Arrependimento. Tem muito menos graça, mas pronto: não é um profissional. Os cómicos sabem que controlar o timing é difícil, mas mais difícil ainda é perceber quando a piada acaba. O problema é que o êxito é inebriante. E quando se ouvem palmas há um impulso para as perpetuar. E é assim que se comete o erro fatal de tentar uma punch line da punch line da punch line e nessa altura é o fim do artista. Tenho a certeza de que o nosso bem-humorado funcionário fez o divertido “Daaa”, de tédio e não esperava uma recepção tão entusiasta do seu público. Podia ter ficado assim e tudo acabava na repreensão. Mas o sucesso é lixado e os colegas pediam mais. Terá havido mesmo o imprescindível atiçador de brincadeiras que lhe deve ter sugerido genialidades como respostas as sanções disciplinares um “não wortem ao assunto” ou “repreensões? Só no Continente”. Enfim, é assim que vejo a história deste homem que escreveu um “Daaa” que irritou os chefes mas empolgou os colegas de escritório. Obviamente, foi-lhe instaurado um processo disciplinar cujo alcance desconheço. Espero que não seja nada de irreparável. Embora no sector privado se ganhe mais, nos tempos que correm estar na função pública é um descanso. Pode-se ganhar mal, mas é sempre melhor que a incerteza de entrar num mercado de trabalho instável. Não aconselho o mundo do espectáculo porque ainda está pior e há muita concorrência. O melhor seria mudar de serviço público. Agora, nas Finanças, podemos encontrar os empregados mais simpáticos da Função Pública. Sobretudo os que estão na secção de execuções fiscais. Como o trabalho que fazem é mesmo muito duro e, por vezes cruel, compensam com um atendimento bem-disposto e alguma empatia. Acho que é uma boa ideia para o nosso funcionário judicial. Aliás, não vão faltar contribuintes que se riam a bandeiras despregadas quando, ao querer confirmar a data da execução fiscal, virem o funcionário a apontar para a data de execução fiscal a dizer “Daaa”. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:03
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