Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

É preciso ter cuidado quando queremos abrir os olhos ao público. Essa ânsia de querer sensibilizar o povo pode levar as pessoas a cometer erros graves, apesar de serem motivados pelas melhores das intenções. Um exemplo disto foi hoje publicado no jornal Público. O cabeçalho tinha a eficácia dos helicópteros no filme Apocalipse Now, de Coppola. O comentário que suscitava era o mesmo que foi dito com as imortais palavras pelo Marlon Brando, enquanto acariciava a sua transpirada careca: “The horror, the horror”. Estava em negrito: “Crimes sexuais contra crianças aumentaram durante julgamento do caso Casa Pia e só desceram em 2008”. A primeira ideia que me veio a cabeça foi que o famoso caso de arguidos famosos tinha promovido este tipo de actividade ilícita. Que os potenciais tarados sexuais do nosso país tinham descoberto uma maneira de satisfazer os seus abjectos desejos nunca antes sonhada e que o caso da Casa Pia lhes tinha aberto novos horizontes de maldade. Rapidamente, refutei esta conclusão imbecil. Lembrei-me que antes de mais nada tinha de ler o artigo. Obviamente, os números apresentados pelo jornalista falam de denúncias e inquéritos. Para o nosso desespero, só dez por cento resultaram em condenações. Mas o mais importante é que o célebre caso de pedofilia não promoveu o crime mas a denúncia. O que é, no meio deste horror, uma coisa boa. Muitas vítimas e testemunhas perceberam que afinal o que estava acontecer na casa não era natural. Os crimes sexuais contra crianças não aumentaram por causa do processo. A pedofilia não foi inventada há cinco anos. No entanto, a possibilidade de ser castigada, parece que é uma novidade. Isto é um progresso. Que os arguidos do caso Casa Pia sejam inocentes ou não é outro problema. Mas que as pessoas tenham compreendido que é um crime, isso é bom. Talvez seja preciso que os crimes sejam mediáticos para que as pessoas compreendam que certas actividades são de facto criminosas. Agora, o próximo passo é apanhar gente famosa a atirar ácido nas caras dos namorados e das namoradas, a serem subornados, a atropelar peões nas passadeiras, a violar maiores de idade e até velhinhas. Só assim as coisas podem ir ao sítio. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:02
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