Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

O julgamento da providência cautelar que proibiu a venda do livro "Maddie – A verdade da Mentira" de Gonçalo Amaral interposta por Kate e Gerry McCann está a tornar-se uma competição entre Portugal e Inglaterra. Se o casal inglês perder, muitos portugueses vão achar que se fez justiça sobre os privilegiados e que a nossa polícia foi manipulada pelo império britânico. No caso de os McCann ganharem, já não terá sido apenas a polícia a ser manipulada mas também a nossa justiça. Este julgamento serve precisamente para se decidir se a proibição da venda do livro se justifica ou não. Sem dúvida que esta é uma questão sobre a liberdade da expressão versus o direito à honra e ao bom-nome exigido pelo casal inglês. Nada de anormal. Processos destes há às dezenas todos os anos. Acho muito louvável que Moita Flores acene com a bandeira da liberdade de expressão com a mesma convicção que noutras ocasiões acenou com a bandeira da honra e do bom-nome. Este é exactamente o problema. Quando é que a liberdade de expressão se torna um atentado contra a honra das pessoas? Proibir um livro tem o mesmo peso que proibir um telejornal? Um artigo de opinião pode ser tão condenável como uma fotografia indiscreta? Não li o livro do senhor Amaral. Parece que sugere que os pais de Maddie têm responsabilidade numa hipotética morte da criança e ocultação de cadáver. Pode ser provável, mas esta afirmação é uma opinião ou uma acusação? Por outro lado, os MacCann, além de se sentirem difamados e, suponho eu, magoados, acreditam que a ideia de a sua filha estar morta prejudica a investigação e os esforços para a encontrar. Todos sabemos dos muitos processos levados a tribunal para defender a honra ou o direito da liberdade de expressão. Mas, honestamente, pela primeira vez em muitos anos, acho que este julgamento faz sentido, é interessante, e espero que no fim deste processo a juíza Maria Gabriela Cunha Rodrigues seja admirada por todos nós. Ingleses e portugueses, claro. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:37
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