Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Penso que estamos todos de acordo quando digo que a adolescência é dos piores anos das nossas vidas. Haverá sempre alguém que diga que foram os seus melhores, mas essa pessoa está agora a fazer entregas para o Pão de Açúcar ou vender-nos alguma coisa pelo telefone. A adolescência é uma seca para todos os que nunca tenham sido bons em desporto, não tenham tido êxito com as raparigas, nunca tenham ganho uma briga na rua e não tenham estatelado o carro dos pais antes dos quinze anos. Menciono ainda o fracasso metafísico de, entre os doze até, no melhor dos casos, os dezassete, não ter a menor ideia porque estamos no mundo, para onde vamos e qual é sentido das nossas vidas. Não porque saibamos as respostas mais tarde mas porque é preciso um pouco de vida para nos estarmos nas tintas. Posso continuar a mencionar problemas insolúveis como, por exemplo, o que fazer com tantas hormonas e tão pouca gente que olhe para nós e ainda menos que nos fale. Enfim, é horrível. Mas também não é uma solução fazer de conta que não se é adolescente e tentar passar por uma pessoa com preocupações sociais e objectivos morais. Mesmo para isso, é preciso ter passado toda a seca anteriormente referida. Caso contrário, e paradoxalmente, estará a tornar ainda mais ridícula e penosa a já de si penosa e ridícula adolescência. Foi o que aconteceu ontem com os jovens estudantes que tentaram sublevar-se contra o fim dos exames nacionais e a figura dos directores, enquanto reivindicavam a “efectiva aplicação” da educação sexual e um estatuto do aluno “inclusivo”. A sublevação não teve muito quórum. Os jovens dirigentes não perceberam que primeiro têm de motivar as massas para que as massas levantem o rabinho da cadeira. Também são precisos muitos rabinhos a caminhar ameaçadoramente para dar seriedade a palavras de ordem tão estúpidas e com problemas graves de métrica e rima como “Não queremos mais do mesmo”, “alunos unidos querem ser correspondidos”, “não queremos directores e empresas nas escolas” e “acordem para a realidade, não nos dizem a verdade”. Felizmente, ainda são jovens e no próximo ano vão ter de conseguir um emprego ou estudar alguma coisa de jeito. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:06
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