Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

É curioso como no nosso país é tão fácil passar de inocente vítima a culpado malvado. Temos um exemplo mediático com o casal McCann. Quando a Maddie desapareceu era talvez o casal mais enternecedor para todos portugueses e, sobretudo, para as donas de casa portuguesas. Porém, bastou não encontrar um culpado para encontrar, primeiro um paladino da justiça, e depois mais uma vítima do intriguismo internacional e português, o ex-inspector da Polícia Judiciária, Gonçalo Amaral. Ainda não sabemos o fim da história, mas o Gonçalo já tem um grupo de fãs considerável e os McCann já não são tão populares como eram. Agora temos, com o jornalismo do buraco da fechadura e a publicação de parte das escutas feitas numa investigação, uma situação de transição moralmente qualificativa com o nosso Primeiro-ministro. Houve um tempo em que Sócrates era uma vítima do jornalismo reaccionário e agora parece ser culpado de ter iniciativas reaccionárias contra a liberdade de imprensa. Embora não tenha tido na sua vida um Gonçalo Amaral, a indiscrição de colaboradores e o zelo de alguns funcionários da Justiça estão a minar a sua imagem de irrepreensível para repreensível governante. Acontece em todas partes do mundo e com muitos líderes. O que me produz espanto é a brutalidade da mudança. Bastou a publicação de umas escutas para que tanta gente ficasse convencida do contrário que nos estavam a tentar convencer? Parece que sim. Pelo menos para o santo e intocável António Vitorino, autor do programa do PS, que assumiu na segunda-feira à noite na RTP que o Governo "dá-se mal com algum tipo de crítica da comunicação social" e reconheceu que Sócrates "deu uma resposta incorrecta quando disse que não sabia" do negócio da PT/TVI. O meu problema não é que as pessoas tenham que ver para crer. O meu problema é que não haja pessoas para corrigir antes de o mal ser feito. Neste momento, não tenho respeito por nenhum socialista que condene Sócrates. Pentiti só para a máfia siciliana. Sócrates devia ter sido protegido de Sócrates. O Partido Socialista devia ter sido protegido dos líderes e dos amigos de líderes abusivos. Agora já está feito, e o que é preciso é responsabilidade. Espero que os meus medos não se tornem realidade. Um deles é que o PS seja na próxima década o PSD das duas últimas décadas. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:25
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