Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Apesar de o nosso défice ser inferior ao da Irlanda, alguns especialistas continuam a prever o pior para Portugal e cada vez nos colam mais ao destino da Grécia. Num momento pensei que as entidades dedicadas a fazer estes ratings podiam saber mais que nós. Sei lá, que tinham encontrado petróleo na Irlanda ou que se tinha descoberto que a Guinness é a cura para o cancro e o uísque irlandês para o Alzheimer. Só coisas assim, cheias de potencial financeiro, podiam explicar tanto optimismo para eles e tanta má onda para nós. A economia irlandesa foi gravemente ferida com o rebentamento da bolha especulativa no sector imobiliário. A dívida pública irlandesa disparou para 65,8 por cento no ano passado. Para este ano, o défice público previsto, 14,7, é muito superior ao nosso. O governo irlandês aplicou um plano de controlo orçamental drástico que inclui cortes nos salários dos funcionários públicos. Com estas medidas conquistou a simpatia das agências de rating e, consequentemente, a dos mercados. Não me surpreende que os irlandeses, um povo que sabe falar ao coração das pessoas, tenha conquistado a simpatia de especuladores, agências de rating, banqueiros e empresários. O que me surpreende é que se fale de simpatia dentro do universo financeiro. Já tenho problemas quando se evoca o sentimento de “confiança” dos investidores. Agora é a simpatia. Parece que cada vez mais vamos humanizando os parâmetros económicos. A Rússia investe no Brasil porque morre de amores pela beleza do país. A França, enganada, retira a Louis Vuitton e a Chanel do Brasil. A China, apaixonada pela Itália, faz desconto nos computadores de marca branca às empresas italianas. Depois de uma noite gloriosa com o México, a Alemanha instala fábricas Mercedes no país da tequila. Já vejo que vamos ter de começar a ter aulas de dança para tentar seduzir um grande e belo fundo financeiro que nos tire desta. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:31
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