Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

É normal que os políticos mintam e muitas vezes não é culpa deles. As pessoas em geral não estão preparadas para ouvir a verdade e isso obriga aos governantes mentir, para pouco a pouco acabar por dizer a verdade. Claro que às vezes o timing não é correcto e quando dizem a verdade já é tarde. Tarde porque já todos sabem a verdade e ali os políticos fazem papel de burros. Ou tarde porque já não se pode fazer nada para remediar aquela verdade, e já há outra nova verdade que tampouco se pode dizer e assim por diante, até o desastre final. Tivemos há pouco tempo um exemplo dos problemas que um governante pode ter quando decide ser sincero. Foi Mariano Gago que, junto com o ministro de Economia, Vieira da Silva, é o membro do governo mais feio. Mas ambos são talvez do melhorzinho que temos no governo. Há poucos dias, Gago foi a uma conferência em Madrid e falou sobre o futuro da rede informática. Afirmou que a pirataria não deve ser encarada pela indústria cultural como um «inimigo», uma vez que «tem sido uma fonte de progresso e globalização». Esta frase inteligente e bombástica provocou más reacções que obrigaram a um desmentido do estilo que houve uma "incorrecta interpretação" das declarações do ministro e que Mariano Gago naturalmente condena toda a pirataria. Tudo isto porque aqueles que lutam, com toda a razão, pela protecção dos direitos de autor se sentiram traídos e julgaram ouvir uma desculpa para a pirataria informática. É engraçado ver como a defesa dos direitos de autor, uma conquista relativamente recente do mundo cultural, pode colidir com o mundo ainda mais recente das novas tecnologias. O nosso ministro das Ciências e Tecnologias nada fez a não ser afirmar um facto: o valor do produto cultural "aumenta" graças à difusão que obtém através da Internet. Sem dúvida que se deve regular mas não se pode deitar fora as novas acepções que a palavra “liberdade” adquiriu com a irrupção da internet nas nossas vidas. Por isso ninguém pode discordar de Mariano Gago quando defende que regular os conteúdos da Internet deve ser feito com sensibilidade, por considerar que a rede global "é uma questão de alargamento de liberdades e não de restrições”. Apetece-me acabar o texto com um típico, quem fala assim não é…. Mas não. Quem assim fala é mesmo Mariano Gago, e é assim mesmo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:06
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