Sexta-feira, 7 de Maio de 2010

Segundo as minhas contas, este fim-de-semana promete ser particularmente místico e extraordinariamente comprido. Não é todos os dias que um Papa nos visita. Não vos quero distrair dos vossos planos, sejam eles religiosos ou oportunamente laicos. Vou ser breve. Em primeiro lugar, quero partilhar convosco o meu descontentamento com as perguntas que a comissão parlamentar apresentou a José Sócrates. Para já, o número parece-me muito pouco educado. O acto de perguntar está sempre no limite da boa educação, mas fazer 74 perguntas, por mais bem intencionado que seja, é um abuso. Por outro lado, é uma prova de que sejam quais forem as respostas do nosso primeiro-ministro, os partidos da oposição nunca vão acreditar nelas. Mesmo a mulher mais desconfiada ou o marido mais ciumento, para saber a verdade não precisa de fazer mais de três perguntas. Nenhuma mulher pergunta ao marido quando é que soubeste que te tinha ligado? Falaste com o teu amigo antes de me dizer que não sabias que eu tinha ligado? Há quanto tempo não falavas com ele? E assim por diante até chegar ao âmago da questão: tens outra? Outro exemplo acontece quando os governos querem dar a impressão de que se preocupam com o que o povo pensa e faz um referendo. Normalmente as perguntas não são fáceis de entender à primeira. Mas como são duas ou três não faz mal, lá nos arranjamos. Nunca serão 74. Se a honra ainda tivesse algum sentido ou alguns seguidores o mundo podia ser mais brutal mas era mais simples. Era bom que pudéssemos acreditar num claro não ou sim sem precisar de contexto. Por exemplo, queremos saber se o primeiro-ministro sabia ou não do negócio da PT com a TVI antes de ter dito na Assembleia que não sabia. Sugiro que a primeira pergunta fosse assim: “Jura pela sua mãe, a saúde dos seus filhos e pelo que mais queira que quando soube que o Jornal de Sexta-feira na TVI ficou triste?”. Se respondesse que sim, que tinha ficado desolado com a notícia, não valia a pena fazer mais perguntas. Se dissesse que não, já fazia a segunda pergunta de uma maneira mais seca, mas com o mesmo começo: “Jura pela sua mãe, a saúde dos seus filhos e pelo que mais queira que não sabia nada do negócio da PT?”. E pronto, éramos obrigados a acreditar. Seja qual for a resposta, ninguém quer eleições, pois não? Ainda por cima com os sacanas dos gregos e das agências de rating à perna. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:10
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