Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

E o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, promulgou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. De trombas, desgostado e enfadado, mas promulgou. Aqueles que estavam a favor da lei ignoraram a infelicidade do nosso chefe de estado. Para quem estava contra, não serviu de consolo ouvir o presidente contrariado. Não se pode ganhar. Contudo, tenho a certeza de que tanto uns como os outros não puderam deixar de ver um pouco deles próprios na atitude de Cavaco Silva. Fazer coisas contrariado é talvez a actividade mais exercida pelo ser humano. E cada vez que acontece revoltamo-nos como se fosse a primeira vez ou como se a contrariedade fosse uma maldição divina ou uma injustiça que só a nós ocorre. A tal ética da responsabilidade que invocou o presidente para justificar não fazer o que a consciência lhe ditava é o problema que todos temos desde que aprendemos a falar e nos acompanha até à cova. O curioso é que a contrariedade deve ser expressada para que o mundo saiba da nossa infelicidade. Estar secretamente contrariado não conta. Alguém tem de saber que nunca teríamos feito aquilo se não tivéssemos sido obrigados a isso. Por acaso, a situação ideal para expressar o nosso desgosto, é precisamente ser Presidente da República. Pode-se mostrar a contrariedade pela televisão em horário nobre e de borla à família, a amigos, inimigos, enfim, a Portugal inteiro. É o sonho de qualquer trombudo português. O primeiro-ministro, por exemplo, não tem este privilégio. Mesmo ontem na cimeira de Madrid, estava mais que contrariado. Mas não podia expressar publicamente o seu enfado. Ao contrário do Presidente, Sócrates está obrigado a fazer de conta de que tudo o que faz é por decisão própria, ditada pela sua consciência, com toda liberdade e para o bem de todos os portugueses. Não é fácil, não senhor. Deve ser uma canseira. Ainda mais, se tivesse de apostar qual dos dois, Cavaco ou Sócrates, vai deixar de exercer as suas actividades oficiais com uma úlcera no duodeno, eu apostava em Sócrates. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:08
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Comentários:
De ana cristina leonardo a 20 de Maio de 2010 às 12:28
e ainda por cima fazer de conta numa língua (?) estrangeira... eu aposto duas úlceras.


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