Segunda-feira, 24 de Maio de 2010

Peço desculpa se me estão a ouvir em más condições, mas é melhor assim que nada. Falo-vos a partir de Londres e, como sabem, as tomadas eléctricas são diferentes. A minha intenção era distanciar-me de Portugal para observar a realidade portuguesa de fora, por isso decidi vir ao Reino Unido. Minto. Na verdade, não queria ver a realidade portuguesa durante alguns dias. Precisava de me ir embora. Achei que vir a este país tão amado pelos nossos intelectuais mais valiosos e sofisticados podia fazer-me bem. Haverá cidade mais diferente de Lisboa que Londres? Sim, há. Tóquio, Veneza, Nova Iorque, só para mencionar as primeiras que me vêm à cabeça. Mas não interessa. Na altura, pareceu-me boa ideia vir para cá. O custo de vida é muito similar ao nosso. Um bocadinho mais caro, mas não é como era noutros tempos, quando tomar uma cerveja em Knightsbridge custava o mesmo que um jantar na Graça. Até o clima está menos inglês. No fim-de-semana esteve tão quente como em Lisboa. Aliás, ontem, domingo, esteve mais calor. Aparentemente, as semelhanças deviam acabar por aqui. Mas não acabaram e isto começou a preocupar-me. Ainda estar aqui e não aí acontece por causa dos conflitos sindicais entre os empregados da British Airways e a administração. Mais um pormenor para não sentir saudades de casa nem da TAP. Da política inglesa poderíamos dizer que nada tem em comum com a nossa. Podíamos, mas já não podemos. Amanhã, terça-feira, a rainha vai dizer o seu discurso. Tudo estaria bem, não fosse alguém ter divulgado indiscretamente uma cópia das passagens mais importantes à imprensa, que as publicou logo no fim-de-semana. Assim, o admirável acontecimento de ser a rainha a anunciar as principais orientações do governo ficou estragado. Quem pode ter feito uma maldade destas, que coloca numa posição embaraçosa a coligação de David Cameron e Nick Clegg? Os suspeitos são dois. Um seria as fracções de ambos os partidos coligados que não gostam da coligação. A ser verdade, acho muito feio fazer jogadas destas aos próprios companheiros de partido. Nem parecem ingleses. Os outros suspeitos seriam um grupo de funcionários públicos descontentes com as medidas tomadas pelo novo governo para lhes reduzir os salários. Também não acho bonito. Um funcionário público não pode pôr em causa a seriedade das suas funções por causa de um desacordo orçamental. É uma péssima ideia que espero não se espalhe em Portugal. Agora é incrível encontrar tantas semelhanças em Londres com Lisboa ou mais exactamente entre o Reino Unido e Portugal. Se há tantos acontecimentos e pormenores parecidos entre ambos os países, é porque estamos a subir na vida. Tenho a certeza de que são boas notícias para todos os anglófilos de Portugal. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:13
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO