Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

Não sou nada paranóico mas às vezes há que ser mesmo muito distraído para não se sentir perseguido. Vou dar-vos um exemplo. Na semana passada falei aqui das minhas dúvidas, cada uma delas mais razoável que a outra, quanto ao problema da venda de álcool aos jovens. Podia resumir todas elas no seguinte: não se deve penalizar o consumidor. No fundo, estava a dar aos jovens a possibilidade de escolha entre uma vida alegre e feliz e outra mais cinzenta com sumos de frutas. Para mim, este assunto estava encerrado. A minha atenção estava dirigida ao Hamas, à Turquia e a essas coisas mais excitantes, quando li o anúncio do Ministério da Saúde de que a idade pediátrica vai ser alargada até aos 18 anos e que os serviços de pediatria vão de "forma gradual e progressiva" estender o atendimento até essa idade. Ai, Jesus! Estamos aqui a defender a autonomia, a liberdade e a responsabilidade dos jovens e a Ana Jorge quer pôr os nossos adolescentes a ser atendidos pelos pediatras. Nem quero imaginar o vexame de um rapaz que entra todo orgulhoso nas Urgências do Santa Maria em coma alcoólico e, de repente, acorda numa sala cheia de miúdos com sarampo. E as enfermeiras, em vez de lhe darem uma descompostura pelo descontrolo naquela festa com bar aberto, enchem-no de mimos e indulgência maternal. Já para não falar da decoração das salas pediátricas, inadequada para desidratados por causa do álcool e dessas pastilhas divertidas que eles tomam. Acho insultuoso pôr os adolescentes cheios de fúria, preguiça e revolta a serem atendidos juntamente com miúdos que acham graça à Popota. É certo que têm alguns pontos em comum. Tal como essas criancinhas, o nosso jovem alcoolizado vive em casa dos pais e não tenciona ir-se embora nos tempos mais próximos. Há também muitas outras afinidades entre um miúdo e um adolescente que não são para aqui chamadas. Mas nenhuma delas é desculpa para misturar angustiados sem fado, como são os nossos jovens, com crianças felizes, que ainda não têm a mínima ideia do futuro que as espera. Juntá-los numa sala de espera é injusto para todos. Às crianças devemos ocultar o futuro e não devemos lembrar os jovens de como ainda há bem pouco tempo eram tão felizes. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:23
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Comentários:
De cs a 5 de Junho de 2010 às 14:04
Sr Comentador, sabe que quando se sobredimensionam Hospitais Pediátricos, como parece que se fez em Coimbra recentemente, tem de se tapar o sol com a peneira, não vá alguém bater com a língua nos dentes!!!


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