Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Percebi que José Sócrates teve uma infância feliz, sem preocupações económicas, típica de uma família de classe média com as finanças de vento em popa. Percebi isto quando o primeiro-ministro afirmou que não gostava de tomar medidas de austeridade simbólicas, como lhe pareceu ser a redução de cinco por cento nos salários dos políticos e gestores públicos. Se tivesse nascido numa família rica clássica, saberia que não há medidas de poupança simbólicas. Cada cêntimo que não se gasta é mais valioso que o seu próprio valor. Não é por acaso que os tradicionalmente ricos são normalmente uns sovinas do caraças. Eles poupam naturalmente e nós, que não compreendemos o que é ser rico, julgamos que a forretice deles é doentia e injustificada. Mas, por alguma razão, eles estão assim, e nós, cá vamos andando, obrigado. Jaime Gama sabe disto e actua em conformidade. Agora, a Assembleia da República vai poder beneficiar das milhas aéreas acumuladas em viagens oficiais. Até Novembro do ano passado estas milhas podiam ser usadas para os deputados a título individual. Nessa altura, Jaime Gama decidiu acabar com o benefício. Agora as milhas voltam, de alguma maneira, a pertencer ao povo português. Não é muito, mas já é uma poupança. Para que este tipo de medidas ditas simbólicas funcionem têm de ser muitas, e há que aplicá-las em tudo o que se possa gastar menos. Os automóveis do Estado deviam ser abastecidos nas bombas dos hipermercados, onde a gasolina é mais barata. Os deputados e membros do governo deviam estar sempre com o mesmo fato, e ter outro só para receberem autoridades estrangeiras ou em cerimónias oficiais. Não falo das gravatas porque já todos usam a mesma desde há muito tempo. Também pode se poupar em telecomunicações. Que mal viria ao mundo se todos utilizassem o Skype? Todos os carros oficiais podiam ser híbridos ou de pequena cilindrada. E deviam ser partilhados pelos colegas. Um carro para dois ministros, ou para quatro deputados ou para seis assessores. Não aconselho os transportes públicos porque o clima social está delicado. Não sei o que poderia acontecer se algum membro do governo, ou mesmo da oposição, fosse apanhado na hora de ponta no metro. Também lembro que o Jumbo às segundas-feiras tem cinco por cento de desconto no valor total das compras e que nas grandes superfícies encontram-se verdadeiras pechinchas. Enfim, as possibilidades são muitas. Poupemos, poupemos desesperadamente. E quanto mais pouparmos, menos simbólico será. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:20
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