Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

Além de termos aumentado a conta bancária dos Black Eyed Peas, a nossa presença no Mundial trouxe mais um tema de discórdia nas famílias e mais uma razão para os intelectuais odiarem o futebol. Tratam-na por vuvuzela e foi distribuída a baixa custo e muita publicidade pela nossa petroleira nacional. Os especialistas afirmam que o som pode ser pernicioso para os tímpanos. Como é sabido, a tragédia de alguns é a oportunidade de outros. Tenho a certeza de que os otorrinolaringologistas nacionais devem, por gratidão, passar a encher o depósito na Galp. No entanto, parece que o povo futebolístico e musical foi aldrabado. Este instrumento, inventado não há muito tempo, tinha um metro de comprimento. Foi inspirado noutro instrumento mais sério apesar do nome, a kuduzela, feito como o nome indica com o corno de um Kudu. Fez-se uma versão mais pequena chamada momozela, cujo som é parecido com o de um bebé a chorar mas ainda mais chato. Aquela que temos, e que foi tão bem recomendada, é a versão intermédia, que responde ao nome de vuthela. As três versões são igualmente irritantes o que reforça o mito de que o tamanho não conta. Há mais um artefacto nesse país tão barulhento que se chama Baleka ou Gijima que emite um som parecido ao de uma sirene. O som tira-lhe qualquer interesse étnico, por isso não vale a pena incluí-lo nesta lista. No entanto, isto significa que a Galp Energia não foi completamente honesta e vendeu-nos gato por lebre. Ou mais exactamente vuthela por vuvuzela. Seja como for, também tenho uma posição clara sobre a introdução deste instrumento no nosso dia-a-dia mundialista. Ao contrário de muitos outros colegas, não condeno a empresa gasolineira nem a agência de publicidade que teve a ideia e o mau gosto de importar este contributo para a cultura popular globalizada. Não fizeram mais que o seu dever profissional. O único problema, para mim, é que a vuvuzela pode provocar aquilo que em medicina se chama o efeito paradoxal. Para não a ouvir mais, parte da população vai desejar que a selecção não passe da fase de grupos. Neste caso, sugiro que atestemos o depósito noutro sítio até ao próximo Mundial. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:48
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