Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

Os nossos colegas da RFM tomaram uma decisão importante: começaram a tratar os ouvintes por “tu”. Esta mudança radical de costumes teve por base um estudo de mercado. A rádio concluiu que os ouvintes preferem ser tratados por “tu” e, consequentemente, desde a semana passada, passaram gradualmente a comunicar com os ouvintes de uma maneira mais informal, mais jovem. Só espero que não comecem a dizer “bué fixe”, ou “tá-se bem” ou estas expressões que, mais que familiares e jovens, são sectárias e discriminatórias. Pelo menos para mim. Esta alteração de tratamento será feita de modo gradual. Uma amiga minha sugeriu que “gradualmente” devia significar começar a transmitir esta forma de trato mais familiar em Massamá ou nos subúrbios de Gaia, para depois, pouco a pouco, ir cobrindo as zonas mais educadas ou de populações onde os idosos sejam a maioria. Mas, infelizmente, não vai ser assim. O método escolhido é ir envolvendo os ouvintes, com perguntas do tipo “importa-se que o trate por tu?” ou “se nos conhecemos há tanto tempo porque não tratarmo-nos por tu?”. Acho bem. O respeitinho é sempre belo e nunca é de mais pedir licença. Contudo, isto pode trazer certos momentos confrangedores. Suponhamos que ninguém aceita a familiaridade proposta. Ou pior ainda, que se por uma questão de pudor ou porque a voz do ouvinte inspira alguma cerimónia, não se ofereça a hipótese deste tratamento jovem. O ouvinte pode sentir que o estão tratar como um velho. Também pode acontecer que aqueles que são tratados por “tu” sejam mais acarinhados que aqueles que são tratados por “você”. Ou quando o ouvinte é tratado por “senhor doutor” pode levar a que se pense que teve direito a um tratamento especial e mais respeitoso que aquele que teve o ouvinte anterior. As dúvidas podem ter dimensões paranóicas ou um efeito de favoritismo ou parcialidade. Quando os ouvintes são tratados por “tu”, as opiniões não são levadas em conta. Mas serem tratados na terceira pessoa, significa que a RFM levaria mais a sério o comentário de sua excelência, o senhor ouvinte que fez o favor de responder ou opinar ao humilde funcionário da rádio Renascença. Pela minha parte, desejo que tudo corra bem aos nossos colegas. Mas me tivessem perguntado, teria aconselhado que, se queriam acompanhar os tempos e os usos contemporâneos, não deviam ter anunciado as suas intenções de familiarizar a audiência. Pode provocar incompreensões ou ferir susceptibilidades. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:37
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