Quinta-feira, 17 de Junho de 2010

A propósito da época de exames, falou-se muito da prática tão antiga como os próprios exames: o copianço. Sinceramente, não vejo qual é o interesse, embora veja a hipocrisia do tema. Não digo que todos alguma vez copiamos, pelo menos premeditadamente, mas quem nunca deu uma olhadela furtiva na página do sacana que não parava de escrever ao ou nosso lado e que tinha resposta para tudo? Quem não tentou ajudar com mímica numa prova oral o amigo paralisado à frente do professor? Não estou a defender os que copiam por sistema, claro. Apenas falo de um instinto de sobrevivência que impele ao desespero. Ou da solidariedade de não querer que o nosso amigo seja humilhado pelo sádico docente. Por experiência própria, sei que as motivações de um estudante para copiar são diversas e frequentemente ingénuas. O rapaz que quer ser artista acha que não é preciso perder o seu tempo com as matemáticas. Segundo as informações mais recentes, a melhor maneira que o Ministério da Educação encontrou para dificultar a fraude estudantil foi incluir mais poesia no exame de português. Está bem visto. A poesia dá para interpretações subjectivas. Quem diz subjectivas, diz arbitrárias. Quem diz arbitrárias, diz que tanto faz e tudo serve. Entretanto, a imprensa e os estudiosos, amparados num desses estudos que aparecem entre Junho e Setembro, querem fazer da prática de copiar um problema de género e étnico. De género, porque os rapazes fazem mais batota que as raparigas. E étnico, porque os rapazes de origem alentejana copiam mais que os de outras regiões de Portugal. Os rapazes mais certinhos são, segundo este estudo, os açorianos. Uma palavra que se parece perigosamente com ariano. Eis uma boa oportunidade para o SOS racismo tomar a iniciativa contra esta nova forma escolar de discriminação. Os alentejanos até podem ser diferentes mas somos todos iguais. Espero que os açorianos comecem a copiar para defenestrar estes preconceitos racistas. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:48
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