Segunda-feira, 5 de Julho de 2010

A ideia dos testes de inteligência para os imigrantes, avançada por um político conservador alemão, foi fortemente criticada, no meu entender, pelas razões erradas. Todos viram nesta proposta mais um impedimento para dificultar a imigração, com a agravante de ter uma componente genética. Nós não somos responsáveis pela nossa inteligência. A que temos, muita ou pouca, devemo-la à sorte de uma inexplicável série de felizes encontros de ADN. Por outro lado, os testes não prevêem o uso que daremos a essa suposta inteligência detectada. No fundo são tão fortuitos como fazer testes de conhecimento da língua do país de acolhimento. Embora, por exemplo, saber alemão seja, já de si, uma prova de alguma habilidade intelectual, isso não significa que todos os que sabem alemão são inteligentes. Mais ainda: pessoas sem jeito nenhum para línguas podem ser muito mais inteligentes que outros que são poliglotas. É verdade que ser poliglota fica sempre bem e ajuda muito. Mas acreditem que a estupidez pode ser expressa em todos os idiomas. Suponhamos que a proposta do político alemão vai para a frente. Só estrangeiros inteligentes seriam autorizados a viver na Alemanha. Passados uns anitos, todos os estrangeiros residentes seriam inteligentes. Isto levaria a que os imigrantes fossem mais inteligentes que a média da população autóctone. Em pouco tempo, e se houver alguma justiça laboral, todos os melhores trabalhos na Alemanha seriam ocupados por forasteiros. Ocupariam postos-chave primeiro nas finanças, logo depois nas autarquias e até podiam chegar a ocupar postos decisivos na política nacional alemã. Sendo todos inteligentes perceberiam que a maior parte dos alemães não são grandes luminárias, mas concederiam que têm muito jeito para os serviços administrativos, de organização e, vá lá, na disciplina. Os estranjas conseguem dominar o poder legislativa e fazem uma lei que diz que qualquer pessoa nascida em território alemão que não seja mais inteligente que um estrangeiro médio tem obrigatoriamente de emigrar. Ser estúpido não justifica nem dá o mérito suficiente para viver na fatherland. Podia ser injusto mas era uma maneira de fazer um país só de pessoas inteligentes. À primeira vista até podia parecer bem. O problema é que cidadãos inteligentes não são uma garantia de bons cidadãos. Uma história assim não pode acabar bem. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:23
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