Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

O advogado Proença de Carvalho disse na Rádio Renascença que o Presidente da República deveria ter uma atitude mais interventiva “perante as dificuldades do país”, nomeadamente “em criar um Governo forte” através de um entendimento entre o PS e o PSD. Desde os anos sessenta que não via ninguém dar relevo a este tipo de afirmações. Lembro-me da época em que os jovens de cabelo longo e as raparigas sem soutien cantavam o kumbayá de mãos dadas e exortavam o mundo para não haver guerras e que acabassem com a fome no mundo. A ideia de unir esforços para resolver os problemas graves da humanidade, além das cabeleiras e das maminhas em liberdade, tem barbas. Mais curioso ainda é que o apelo de unidade ante um presente difícil acompanhado da certeza de um futuro desastroso só funcionou em momentos limites. A Inglaterra na Segunda Guerra Mundial foi o mais belo exemplo de unidade nacional e partidária. Que existisse à sua frente um homem como Winston Churchill não é um detalhe menor. Uma crise económica justificaria uma suspensão ideológica e política dos partidos? Julgo que não. Seria o mesmo que afirmar que a democracia e as diferencias de opinião só funcionam na prosperidade. Ainda por cima, o inimigo comum, como o défice interno, a falta de produtividade, a corrupção, as dívidas, o desemprego e assim por diante não são problemas que tenham uma só solução. E se tivessem, a democracia estaria para a realidade o que uma conversa de café está para a divergência de opiniões. Se os momentos difíceis que estamos a viver tem uma solução, passa apenas pelo cumprimento das responsabilidades e a vigilância ante os abusos de poder, quer políticos quer financeiros. Não é preciso mudar as nossas convicções. Apenas cumpri-las com honestidade. É agora que as divergências devem ser levadas a sério. A solução não é exigir uma só voz que resolva em nome da maioria ou porque grita mais. Pelo contrário, agora mais que nunca, devemos usar todos os ouvidos. E deixemos o hábito de darmos as mãos uns aos outros. Só era bom para engatar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:27
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