Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

É dito com frequência que a Direita é insensível aos problemas sociais e humanitários ao contrário da Esquerda, que sempre que pode mobiliza-se para protestar. É difícil contrariar este argumento. É certo que a esquerda nas suas várias representações políticas encontra sempre uma razão para se manifestar e tornar público o seu descontentamento. Independentemente de estar ou não de acordo com a desinibição e o gosto pela conglomeração pública, é uma realidade que é mais fácil conhecer a posição popular da Esquerda. Julgo isto como uma virtude, embora possa provocar engarrafamentos inesperados que são acrescentados aos habituais. Mas é um direito e, por vezes, um dever, mesmo que às vezes possa ser inútil e incómodo. É preciso tornar públicos a aprovação ou o desagrado para que as pessoas não pensem que estão sozinhas com as suas opiniões e para que os alvos dos protestos ou dos apoios não se sintam ignorados. Suponho que numa verdadeira participação democrática não haveria um grupo ou uma perspectiva que tivesse o monopólio do protesto. Compreendo que há causas que dividem as pessoas. As tais estupidamente chamadas fracturantes como o aborto, o casamento gay, a interpretação da liberdade religiosa, e todas essas coisas que são simples de identificar com perspectivas diferentes da vida ou das tradições. Mas há outras que pertencem a qualquer ideologia que implique valores universais como a condenação do homicídio, do roubo ou da mentira. Por exemplo, esteve de visita ao nosso país o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Manucher Mottaki. A posição anti-americana deste país torna-o um aliado de todos aqueles que têm pelo menos antipatia pelos Estados Unidos. Acontece que, paralelamente à sua política exterior, no Irão há uma mulher, Sakineh Mohammadi Ashtiani, que foi sentenciada à morte por lapidação por ter cometido adultério. Morte, lapidação, adultério nunca devem ser escritas na mesma frase. Este ministro confirmou a sentença, mas teve a deferência de defender a realização de um amplo debate sobre a questão do castigo imposto pela lei islâmica. Agradeço a compreensão pela nossa intolerância à charia, mas aceitar o debate não fez dele melhor pessoa nem do regime um bom regime. Que a Direita não tenha expressado publicamente o seu repúdio por esta visita não me surpreende. É o costume. Que a Esquerda ignore este crime, infelizmente, também não. É tradição defender os aliados, mesmo contra toda a esperança. Nunca estão quando precisamos deles. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:43
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