Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

A semana passada ficou dominada pelas propostas para uma suposta revisão constitucional apresentada pelo PSD. Já com os ânimos mais calmos e a distância que nos dá o tempo composto por cinco longos dias, podemos afirmar que foi um desastre. Mas, curiosamente, não foi um desastre do género de haver um ou dois problemas de interpretação, ou dois ou três partidos políticos a condenar ou um grupo de militantes da comissão directiva ou uma qualquer outra direcção partidária a discordar. Não. O que aconteceu foi uma avalanche de divergências vindas de todos os lugares da terra política. A proposta do PSD foi atacada pela forma, pelo conteúdo, pela oportunidade, pela traição aos ideais de Abril, pela deslealdade aos princípios fundadores do próprio partido, por ser um ataque à essência do Estado, tal como se pensa o Estado na Europa ocidental e assim por diante. Se apresentarem uma objecção qualquer, podem estar certos de que esteve presente nalgum comentário de não sei qual comentador ou politico de qualquer dos lados da barricada. Sinceramente, não tive acesso ao texto final. Aliás, como quase toda gente que atacou ou mesmo defendeu a proposta de revisão. Contudo, posso afirmar que as tácticas e estratégias políticas da nova direcção do PSD são, para mim, um enigma. Sabendo a importância do tema, reafirmo o que disse uma amiga minha: como é possível que se apresente uma coisa destas, mesmo antes de o país ir de férias? Para leitura na praia? Espero pelo momento oportuno, digamos quando realmente se fizer uma revisão constitucional, para falar dela. Entretanto. deixo-vos um comentário extraordinário que de Clara Ferreira Alves, na SIC, que detectou o dedo de Paulo Teixeira Pinto, o ex-administrador do BCP, na redacção do texto que proporia modificações radicais no Serviço nacional de Saúde e noutros sectores extremamente sensíveis para os portugueses. Afirmava que um homem rico como ele, que tinha recebido uma indemnização como a que recebeu e uma reforma como a que agora recebe, não podia intervir num proposta que atinge os problemas dos mais pobres. Aqui temos uma curiosa discriminação. Isto significa que só os pobres podem decidir sobre os problemas dos pobres e, portanto, só os ricos poderiam ter opinião sobre os problemas dos ricos. Um raciocínio assim pode levar-nos ainda mais longe: só as crianças compreendem os problemas das crianças, os animais os dos animais, e todos os portugueses divididos por sexo, idade, actividade, conta bancária, crenças, educação e sei lá que mais podem apenas resolver os problemas dos seus pares. Bem vistas as coisas, o comentário é tão disparatado como propor mudanças constitucionais no fim do mês de Julho. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:20
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