Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Li no Diário de Noticias que há 2324 portugueses presos no estrangeiro. Depois de fazer um resumo da distribuição destes prisioneiros no mundo, 622 em França, tendo a China apenas um, o jornal dá conta dos depoimentos de dois compatriotas inocentes. Ambos se queixam das condições que suportaram enquanto reclusos. Não interessa se estiveram presos em Inglaterra ou na América do Sul. Foi sempre mau. À nota foi acrescentado um pormenor por um professor de francês que tem contacto com reclusos lusos, se me permitem a aliteração. Afirmou o professor que "em Portugal num espaço para cem presos há 104. Em França, por cem presos há 140". Eis um exemplo de saudosismo. Quem em Portugal falaria bem das prisões? Mas o mais interessante desta nota estava nos comentários dos leitores. Quando li, havia nove comentários. Nenhum se referia aos dois inocentes. O problema, e o povo tem razão, era para sete ou seis dos leitores – quando os comentários são assinados por anónimos baralham as contas. Para eles, os números de prisioneiros eram uma prova contra os xenófobos que em Portugal acusam os estrangeiros de serem os maiores responsáveis pela criminalidade. Para dois ou três, era uma vergonha termos portugueses criminosos fora de Portugal. Mas houve um comentário de que gostei particularmente porque parecia ver o lado bom do problema. Ou pelo menos assim parecia: “Considerando os milhões de tugas e tugas-descendentes espalhados pelo mundo, o facto de menos de 2500 estarem presos no estrangeiro é uma prova que o português é notavelmente honesto!” Era simpático se tivesse terminado aqui. Mas para justificar as suas ideias continuava assim: “Por isso, e com a devida vénia a todos os que aqui aparecem a babar de satisfação, convido-os a ver o número de estrangeiros nas cadeias portuguesas e tirar as devidas conclusões!”. Para este senhor, todos os estrangeiros em prisões portuguesas eram o nosso equivalente a todos os portugueses em prisões estrangeiras. Parece-me injusto e muito megalómano, mas não deixa de ser enternecedor. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:10
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