Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010

A demagogia não é só uma perspectiva política tentadora é também um comportamento narcisista irresistível. A avó que dá de comer aos netos comidas proibidas pelos pais. O pai que dá às escondidas as chaves do carro ao filho. A filha que diz o que os pais querem ouvir para que a deixem ir com as amigas a Ibiza. Em suma, o que fazemos para que os outros se sintam bem, e para deles obter algo que doutra maneira seria muito mais difícil, tem uma enorme proximidade com o que em política se chama demagógico. Não é um pecado mortal mas pode ser chato. A Associação de Cidadãos Auto-mobilizados (ACA-M) é um exemplo de uma excelente iniciativa de cidadãos. Quase todos nós somos automobilistas e todos de vez em quando somos peões ou passageiros mas ninguém defende a uns nem outros de uma maneira convicta, concreta e inteligente como a ACAM-M. Gosto mesmo desta associação e deve ser por isto que quando fazem uma asneira me incomoda dez vezes mais que o tamanho da própria asneira. A ACAM-M defendeu a demissão do ministro da Administração Interna, Rui Pereira, porque o considera o principal responsável pelo facto de os condutores se sentirem impunes face às infracções rodoviárias que cometem. Esta alegada impunidade seria consequência do desinvestimento da GNR nas acções preventivas e do acréscimo de esforços em actividades mais lucrativas como a caça à multa. Todos sabemos que vivemos num país em que demitir-se nunca é uma opção por mais disparates que se façam. Mas pedir a demissão do ministro da Administração Interna pelos acidentes rodoviários é como exigir o mesmo pelo paupérrimo desempenho dos professores ou o baixo nível dos alunos. Porém, e aqui voltamos à história da demagogia, quem é que não apoia uma iniciativa que reduza a obsessão das diferentes polícias por nos multar? É uma realidade que esta malta está obcecada por um cinto de segurança ou um papelinho esquecido em casa, mas daí a fazer uma relação directa com as vítimas e os irresponsáveis que conduzem em excesso de velocidade é um salto com pirueta, fouetté en tournant e saída em grand jetté. Que é como quem diz, muito retorcido. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:31
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