Quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

A expulsão de ciganos ordenada pelo governo francês relembrou que a mentalidade europeia é organizada pela mediocridade. Percebo que os ciganos, ou os Roma, como agora lhes chamam, não sejam fáceis de aturar. É uma cultura fechada, preconceituosa, arrogante e incontrolável. E, pior, há séculos que tem uma péssima publicidade. Até os contos infantis, Pinóquio entre eles, os consagraram como papões etnicamente reconhecíveis. A aversão aos Romas é formada desde a mais terna infância. Contudo, não digo que seja totalmente infundada. Acredito que há ciganos criminosos, como os há pretos, árabes, nórdicos, europeus, galeses. Mas quando se fala dos Roma, a criminalidade é apenas burguesmente aceite; como se fosse uma condição sine qua non destas pessoas. Seja como for, esta etnia, sem ter influenciado directamente a história do mundo, sobreviveu a todas as histórias que o mundo teve. A sua cultura é uma curiosidade mas nunca foi uma influência. Talvez na música, com as rapsódias, com Liszt e Paganini, mas mais pelo desafio de adaptar a sua exuberância expansiva à nossa predominante melancolia ou cerimoniosa musicalidade. Que os países europeus não tenham conseguido “civilizá-los” ao longo destes séculos é, sem dúvida, um fracasso cultural. Esta força cigana merece respeito. Não está em causa o dever do cumprimento da lei, até mesmo por tão exótica e independente comunidade. Mas discriminá-los por, em conjunto, serem perigosos para sociedade suburbana, é, além de idiota, uma traição à nossa civilização. Os ciganos deviam ser tratados com o mesmo respeito que devemos às espécies em vias de extinção. A ânsia de controlar os nossos impostos, a nossa saúde, a educação, os nossos tempos livres, vai chegar a um ponto em que não haverá espaço burocrático para as culturas independentes ou marginais. É cada vez mais difícil viver à margem seja do que for. Os Roma conseguiram-no durante séculos. Aceitemos o seu triunfo e esperemos que também sobrevivam a estes tempos, em que os computadores são cada vez mais severos e as administrações mais implacáveis. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:27
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Comentários:
De ana cristina leonardo a 28 de Agosto de 2010 às 12:58
Carlos, vou roubar o post. Disseste tudo o que ando para escrever e não consigo. Os ciganos estão-se nas tintas para a nossa modernidade e não lhe têm particular respeito - no fundo, no fundo, é isso que chateia a malta. Um abraço
Ps.: Podias ter incluído o Django Reinhardt


De acatar a 28 de Agosto de 2010 às 14:14
com quantos ciganos lidou de perto ao longo da sua vida e como foi a experiência?


De JPB a 28 de Agosto de 2010 às 14:15
Ter respeito pelas espécies em vias de extinção não significa ter um crocodilo na cozinha. Eu expulsava-o, se lá me entrasse algum.


De Maria Portela a 6 de Setembro de 2010 às 13:28
Penso que se está a fazer um grande alarido com o facto que estes indivíduos são de etnia cigana. Convém lembrar que estas pessoas são emigrantes ilegais, ou seja, estão ilegalmente num país que não é o deles. Todos os dias se expulsam asíaticos, europeus de Leste, africanos do Reino Unido, contudo não se ouve dizer que são ataques pessoais a determinadas etnias. Não vejo a diferença nisto e na expulsão dos romani de França.
É curioso que os britânicos que têm uma embirrância secular com os franceses e não perdem uma oportunidade para criticar as suas políticas, não fizeram nem uma infinitésima parte da cobertura jornalística que se fez em Portugal a propósito do assunto.


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