Terça-feira, 24 de Agosto de 2010

As declarações da nossa única aposta ao Nobel, António Lobo Antunes, fizeram-me muita confusão. Contaram que não tinha ido a Tomar por receio de confrontos físicos com militares reformados e ofendidos. O escritor rapidamente esclareceu que não tem nem nunca teve medo de andar à pancada. Orgulhoso das suas convicções, afirmou segundo o jornal Público, que não compareceu ao encontro por sentir que estava a ser usado politicamente como um exemplo de “portugueses famosos que fazem férias cá dentro”, um inocente apelo estival do nosso Presidente da República. O DN e o JN publicam outras versões e explicam que Lobo Antunes não compareceu porque leu no Expresso, quando se dirigia a Tomar, que o tema do encontro era a guerra, suponho que a colonial, e o escritor não queria falar sobre o tema. A decisão de voltar para casa a meio do caminho parece-me demasiado radical. Contudo, o esclarecimento de não voltar as costas à pancadaria, é preocupante. Um homem prestes a cumprir 68 anos, cuja forma física é pelo menos duvidosa, se não tem medo de confrontações físicas, devia ter. Claro que os putativos agressores deviam ser mais ou menos da mesma idade, foram militares e, sobretudo, eram mais que um. Compreendo que um homem que casou há pouco tempo ainda pode estar a querer impressionar James Bondamente a sua mulher, mas tenho a certeza de que ela não casou com ele pelos seus bíceps. No pior dos casos ficará desiludida se nunca chegar a ir a Estocolmo, ou se num futuro não muito longínquo não ficar à frente duma Fundação. Mas isso seria totalmente normal. Que mulher não quer que o marido realize os seus sonhos? Por outro lado, a explicação de não querer ser instrumentalizado politicamente parece-me ridícula. Bastava chegar a Tomar e dizer que não fez férias cá dentro, e que na verdade passou três meses no Brasil, Hong Kong ou na Islândia. Ficava bem e o assunto estava encerrado. Outra resposta, talvez mais popular, mas menos elegante, podia ser que estava em Portugal e não em Nova Iorque como é habitual, porque os sacanas do Ministério das Finanças não param de lhe exigir pagamentos por conta, e que isto não continuar assim. Uma última alternativa, mais dramática, seria dizer que estava em Portugal por questões de saúde ou profissionais. Até ninguém levava a mal que sugerisse que, desde que morreu Saramago, não tinha mãos a medir para as conferências, as entrevistas e toda essas frivolidades que fazem parte da vida de um artista, que é candidato regular ao tal prémio literário sueco. Já agora, se era para falar da guerra, tinha mais pinta ir e não falar. O que podia acontecer? Uma cena de pancadaria? Lobo Antunes não se importava. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:31
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