Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

Li no Diário de Notícias que as praxes universitárias estão a ser substituídas em muitas faculdades por iniciativas solidárias. Segundo o jornalista que escreveu o artigo, o agravar da crise económica e as penas disciplinares para os autores de praxes violentas fizeram aumentar as iniciativas de ajuda a quem mais precisa, dentro ou fora da escola. Tanto uma explicação como a outra parecem-me delirantes. Que a crise nos toque a todos, estudantes incluídos, é uma realidade. Mas que ela provoque um comportamento de beneficência para substituir actos de iniciação, em que a crueldade, o mau gosto e a misoginia são tradicionalmente aceites, é um exagero. Ou, pior ainda, é apresentar uma consequência boa de acções especulativas, incompetência e corrupção. Para mim, está fora de questão atribuir uma nova consciência moral e social a uma situação que, embora nova, não é assim muito pior que outras que já vivemos, como, por exemplo, nos últimos anos da década de setenta. A outra causa do comportamento solidário é atribuída às penas disciplinares instauradas não há muito tempo devido aos abusos cometidos. Isto seria infame para o bom-nome do inconformismo juvenil. Seria também uma prova de que a intimidação punitiva não só funciona como amedronta sem resistência. Não acredito que sejam assim tão maricas. Por outro lado, entre o escarmento das praxes e as boas acções há uma distância enorme. Pelo meio, podia haver brincadeira pesadas, brincadeiras não tão pesadas, piadas pouco engraçadas, piadas divertidas e assim sucessivamente até chegar, muito, muito depois à distribuição de comida aos sem-abrigo ou visitas aos lares de anciãos, por exemplo. Uma mudança tão drástica provoca desconfiança. Aqueles que quase violavam raparigas, agora trabalham como voluntários no banco alimentar contra a fome? Não pode ser. Se for, temos uma juventude bipolar, que quando está sem cheta é disciplinada e santa. Mas quando tem dinheiro e liberdade porta-se mal. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:16
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