Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Se há coisa que admiro são as pessoas que ainda querem mudar o mundo. Apesar de a história demonstrar que as mudanças radicais não só são inúteis como más. Apesar de os homens que tentaram fazer mudanças brutais terem sido vítimas das suas ideias e terem levado com eles muita gente para a tumba, insistem que é possível. Estas pessoas, apesar de cruéis, idiotas ou visionários, ainda merecem a nossa atenção. No melhor dos casos, lembram a loucura bem intencionada de D. Quixote. No pior, devem ser irmanadas a Estaline, Pol Pot ou o diabo na terra. Mas haverá sempre alguém que os relacione com a santidade e a solidão de quem tem a certeza de ter a razão do seu lado. Estes pensamentos profundos vieram-me à cabeça quando li que Cristiano Rolando criticou os adeptos do Real Madrid por terem assobiado à equipa no seu último jogo, que, por sinal, ganharam, mesmo jogando mal. Ronaldo, o herói incompreendido que se afasta, sozinho, no poente, sentiu-se ofendido: «A energia que gastam para vaiar poderia ser utilizada como apoio», afirmou, como se estivesse a explicar o segredo do universo. «Ganhámos e os adeptos deviam estar felizes», concluiu, como quem explica o bê-á-bá da alta competição. Ronaldo é um idealista. Não lhe interessa por que razão lhe pagam a ele e aos seus colegas, embora um bocadinho menos, fortunas arábicas. Ele despreza quem pense que o dinheiro dá direitos sobre a dignidade das pessoas. Ronaldo até deu o exemplo dos adeptos ingleses. No Manchester, quando jogavam mal, ficavam calados, como se respeitassem a humanidade e sensibilidade dos jogadores. Admiremos a ousadia de invocar os ingleses como modelo de conduta. Logo eles, que se não tivessem tido mau tempo no canal, e a Armada Invencível tivesse sido derrotada pela Natureza, estariam agora a falar espanhol. Ronaldo não tem papas na língua. Mas atrevo-me a suspeitar de que todas elas estão na cabeça. No entanto, espero de coração aberto que os adeptos tenham sentido o seu comentário como uma lição e que mudem a sua conduta, e não assobiem mais quando não estiverem a gostar do jogo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:22
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