Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Na semana passada foi notícia a indignação de associações de pais e docentes por causa de um dicionário recomendado que incluía obscenidades vernáculas. As escolas que recomendaram a compra de um dicionário com palavrões aos alunos do 1.º ciclo admitiram ter-se tratado de um "lapso" na indicação da cor da capa da obra da Porto Editora. Escolheram a capa azul, com a designação Dicionário de Língua Portuguesa, mas deveriam antes ter sugerido o Dicionário Básico de Língua Portuguesa cor de laranja, que a editora garante ter sido elaborado "especificamente" para o 1.º e o 2.º ciclos do básico. Não vale a pena falar da estupidez dos indignados. Mas pelo menos o problema foi provocado por daltonismo. Apesar disso, e porque os livros não crescem em árvores, as crianças dos seis aos dez anos vão continuar a usá-lo. Esta situação de duplo vocabulário é que me suscita algumas dúvidas. Numa mesma turma será possível que os sortudos com dicionários de capas azuis percebam o que significa e talvez como se usam determinadas palavras banidas de documentos e livros académicos, mas acarinhadas e utilizadas prolixamente por todos os portugueses, à excepção do Presidente da República e das nossas avós. Na outra parte da turma, aquela dos dicionários correctos, os de capa cor de laranja, teremos os eruditos que improperarão com rigor escolástico. Estes serão facilmente reconhecíveis em momentos de fúria ou revolta. Por exemplo, aquele que deixar cair o seu Magalhães não poderá impedir-se de exclamar um “pénis!” saído do fundo da alma. À segunda queda do computador poderá gritar um sofisticado “Faz-se amor!”. Mais delicadas serão as situações de disputa, com o perdão da palavra. Ao sentir-se gozado por um colega, o outro dirá com propriedade: “Tu não me faças amor! Seu filho de uma cortesã!”. Imaginamos que se estabelecerá uma barreira linguística muito maior que as barreiras de classe social, raça ou clube de futebol. Vão passar a ser os azuis ordinários e os laranjas pedantes. Gostava de saber se o rapaz que utiliza com acuidade a palavra “vagina” será ou não repreendido como aquele que sabe como se diz no dicionário azul. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:32
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