Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Apesar de estarmos a viver há quase vinte anos com as novas tecnologias, ainda se fala delas como se continuassem novas. É ridículo pensar nelas com a melancolia de tempos passados. Reconheço que não sou uma pessoa que goste de mudanças. Mas convivo com elas com uma felicidade sinceramente resignada e com um ainda mais grato contentamento. Que os jornais vão mudar e que a sua quantidade vai diminuir parece-me natural e até necessário. Paul Gillin, um veterano do jornalismo especializado em tecnologia, lançou em 2007 o "Newspaper Death Watch" (Observatório da Morte dos Jornais), um site onde afirma que as "tectónicas" transformações que se estão a operar no mundo dos media "vão destruir 95 por cento dos maiores diários citadinos norte-americanos". E quem diz norte-americano, diz o resto do mundo desenvolvido ou em vias de. No entanto, falar assustadamente do futuro é coisa de meninas ou de adultos depressivos. Quando Guttenberg inventou a forma moderna de impressão de livros terá causado o pânico entre os frades copistas dos conventos? Duvido. Primeiro, porque devem ter sido os últimos a saber. Segundo, porque não devem ter acreditado que alguma vez seriam substituídos por aquelas máquinas. E tinham razão. Eles não foram substituídos, mas sim a forma de aceder aos livros, o seu valor, a rapidez da sua feitura, etc. Nenhuma destas mudanças tinham que ver com o universo desses maravilhosos monges que reproduziram ano após ano livros que agora até podemos descarregar no iPhone. Reclamar ante a putativa morte dos jornais é tão absurdo como nos queixarmos do cinema sonoro ou julgar que os carros acabaram com o prazer de andar a cavalo. Os jornais vão mudar, isso é certo. Mas ninguém os vai matar. E, já agora, a inevitabilidade de se tornarem mais especializados, fá-los-á certamente serem mais interessantes. Por outro lado, como dizia um médico amigo meu, enquanto houver doentes, teremos sempre trabalho. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:34
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