Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Tenho a ligeira impressão de que os portugueses estão zangados com José Sócrates e Pedros Passos Coelho, por não se entenderem neste momento de preocupação financeira. Que eu saiba, só duas pessoas mantêm a calma e não dão importância à quezília. Quem diria que Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva pudessem alguma vez estar de acordo nalguma coisa? Ambos sabem que tudo vai acabar com um final admissível para ambos os líderes. Concordo com eles. É certo que nunca presenciámos uma zanga tão despudorada e inquietante como esta, mas quem tem vizinhos apaixonados como eu, e com certeza Cavaco e Soares também tiveram, sabe que isto é, não uma encenação como sugerem as comadres dos meios de comunicação, mas uma forma antiga de preliminares. Uma das causas mais frequentes das discussões entre casais novos é o dinheiro. Este tema leva rapidamente ao passado de cada um e termina com uma análise exaustiva dos defeitos dos parentes próximos dos amantes. Claro que não estou a sugerir que Pedro e José se amem. Nada disso. Mas são como dois galos num galinheiro. Se não fossem as galinhas, até eram bons amigos. Mas acabemos aqui com esta infeliz analogia. Voltemos ao despudor. Ambos são relativamente jovens, com as hormonas orçamentais a sair pelos poros. Nenhum quer ter a responsabilidade de orçar. Aliás, quem seria tão estúpido para querer orçar quando não há dinheiro que chegue? No entanto, discutir com tanta paixão só indica que nem Pedro nem José querem atirar a toalha ao chão. Agem como se cada um tivesse a solução e só a teimosia do outro o impedisse de aprovar o plano orçamental que vai salvar o mundo, ou pelo menos Portugal. Agora imaginemos que é levada a cabo a alternativa de discutir estas posições na Assembleia da República. Isto, sim, seria uma vergonha. Era como se a família tentasse resolver uma desavença exaltada que pertence apenas aos dois jovens e magros lideres. Não quero ver Ricardo Rodrigues a orçar melhor que Agostinho Branquinho, isto para citar dois polemistas particularmente irritantes. A discussão deve ficar entre Sócrates e Passos Coelho. Só assim se poderá formar uma base sólida para o futuro. Agradeçamos, então, a sinceridade com que orçam e se enxovalham. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:36
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