Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

Já lá vão os tempos dramáticos em que os líderes apelavam a fosse o que fosse, dando como alternativa a morte. Liberdade ou morte, socialismo ou morte, revolução ou morte, independência e o mesmo. Os franceses, um povo de uma cultura mais verborreica, foram mais explicativos na revolução francesa e gritaram: “Liberté, égalité et fraternité ou la mort”. Todo um programa de governo ou o fenecimento. Eram tempos difíceis para quem não concordasse. E tempos inebriantes para quem tivesse tendências homicidas. A nossa época é mais temperada e as escolhas menos lancinantes. A gasolina ou híbrido, iPhone ou BlackBerry, Mac ou PC, na tua casa ou na minha, e essas escolhas problemáticas, mas que ao menos ninguém morre se se enganar. Neste espírito moderno e civilizado, podemos afirmar que a vida não só nos está a correr tão mal como dizem como há uma concordância em moderar o sacrifício que se exige. Ninguém disse: orçamento ou suicídio. O PECIV ou a castração voluntária, Cavaco ou Alegre. Nada de angústias. Apenas nos deram a escolher entre compromisso ou instabilidade. Não está mal. Esta sensatez foi confirmada ontem por três ex-presidentes e o actual, mais o primeiro-ministro. Compromisso ou instabilidade é uma alternativa viável e aceitável. Mantém a incerteza natural de uma escolha importante, sem por isso ter de dizer adeus à vida. É importante reparar que tanto o PCP como o Bloco apelam à instabilidade. Um pormenor que faz todo o sentido. Qualquer revolução, por mais comedida que seja, sugere sempre um processo de instabilidade; o que significa que é normal que uma esquerda que tem o fascínio ancestral pela mudança possa não se sentir posta de lado. Embora, tenha este pequeno problema, nenhum revolucionário, por mais fanático, poderá gritar: instabilidade ou morte. Não é muito apelativo e ninguém gostaria de dar a vida pela desestabilização. Agora temos a certeza de que todos os portugueses de qualquer ideologia, qualquer que seja a sua escolha, sobreviverão a este desequilíbrio orçamental. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:27
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