Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

Como protesto contra a escolha do Nobel da Paz, atribuído ao dissidente Liu Xiaobo, a China cancelou um encontro com uma ministra norueguesa, afirmaram as autoridades em Oslo. Por aqui, o PCP reagiu à distinção considerando que se tratou de “mais um golpe na credibilidade” do galardão. Os chineses acusaram o golpe e o PCP confirmou a falta de credibilidade destes prémios. Aliás, é uma opinião que temos desde 1901, ano que foram outorgados pela primeira vez os Nobel. No entanto, é enternecedor que o PCP defenda a China mais veementemente agora que de socialista só têm os salários. O importante deste incidente é que a China pode lidar com o Tibete, contra os protestos pelas violações dos direitos do homem, contra a pressão dos mercados para que revalorize a sua moeda e essas coisas. Mas quando se trata de um prémio dado a um cidadão desgostoso, perdem a cabeça. Deve ser uma dessas coisas da sua cultura milenar. Se calhar, dar um prémio a um inimigo interior é como para nós que o nosso melhor amigo saia com a nossa mãe ou a nossa filha. Sei lá, não conheço muitos asiáticos e os chineses que conheço não passam de um chao-min disto ou de um chop-suey daquilo, e só com arroz branco que odeio o chau-chau. Porém, como antipatizo com o regime, julgo que este incómodo produzido pelo Nobel é o caminho a seguir. Sugiro que comecemos a dar prémios aos dissidentes. Podemos começar pelo cinema e dar uma série de prémios a qualquer dissidente com uma câmara digital. Um Leão de Ouro em Veneza, um César em Paris, o Grand Prix em Cannes e Óscares directamente de Los Angeles. Emmy, Grammy e Conchas de Ouro também contam. A questão é encontrar dissidentes com algum jeito artístico para não sermos desmascarados nestas acções subversivas. Devemos ainda convidá-los para a Eurovisão e para os prémios da MTV. As revistas sociais podem escolher os mais e menos bem vestidos da dissidência chinesa. O guia Michelin pode dar estrelas aos restaurantes onde os opositores comem. O simples facto de dar quatro ou cinco garfos a uma tasca chinesa deve pô-los doidos. Nós podemos contribuir com os Globos de Ouro, as condecorações no dia de Camões, o prémio Pessoa e algum jogo floral que entretanto nos ocorra. Tenho a certeza de que dissidentes não faltam e deve havê-los para todos os gostos. Podemos contribuir para as grandes transformações que o povo chinês merece e das quais nunca sequer ouviu falar. Galardoemos os dissidentes para chatear os coniventes. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:31
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