Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Na segunda-feira, Fátima Campos Ferreira reuniu no seu programa três ex-Presidentes da República. Se tivesse sido para discutir teria sido um programa memorável. Mas pareceu mais uma reunião de avôs a dar conselhos numa crise familiar. Porém, ter sido presidente e encontrar-se com os seus pares tem alguma coisa de clube inglês. Tinha gostado de os ver sentados em cadeirões a fumar charutos e a tomar um bom conhaque. No entanto, no meio da unanimidade no diagnóstico (“insustentável”) e cura (entendimento entre Sócrates e Passos) da nossa doença financeira houve um momento inesperadamente violento. Eanes que, diga-se de passagem, fica muito melhor com barba e sem óculos escuros, disse a sua frase célebre estreada no dia da República: “não há ninguém inocente”. Eu gosto. Até porque fica bem em qualquer situação. No dia a seguir a uma orgia ou a uma bebedeira. Depois de confrontos entre benfiquista e portistas. Nos massacres dos hutus aos tutsis. No surgimento da extrema-direita nos países nórdicos. Quando discuto com a minha mulher. Enfim, é uma frase que dá sempre jeito. Neste caso, interpretei-a como uma responsabilização dos governos que tivemos, dos partidos que temos e da incompetência administrativa misturada com um pouco de corrupção, outro tanto de populismo e muito de falta de sentido nacional dos políticos e empresários. Mas parece que não. Sampaio, numa observação digna do Bloco ou do peronismo, disse: “todos somos responsáveis [pela crise financeira], mas uns são mais responsáveis que outros. Não posso pedir as mesmas responsabilidades a um reformado que ganha 300 euros.” Embrulha, Ramalho, deve ter pensado Sampaio. Sem dúvida todos têm um Sócrates adormecido pronto a saltar. Um Louçã escondido para estragar as boas maneiras, um Portas pronto para épater le bourgeois, como dizia a minha tia, famosa pelos decotes que levava quando ia à missa do galo. Não gostei e logo ao Eanes, que parece um desses frades que não falam. Um ex-presidente não se pode esconder no “devido respeito” para estragar uma noite entre amigos. Até o Soares cometeu a inconfidência de contar que já advertira Sócrates que isto assim não ia a lado nenhum. Então, Sampas? Todos são corporativistas, menos tu? Não se faz. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:33
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