Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

A minha família, da parte da minha mãe, tinha uma tendência congénita para a depressão. Quando mataram o Humberto Delgado ninguém saiu da cama durante quinze dias. Quando Salazar caiu da cadeira, a mesma coisa. Só mais tarde compreendi que não era confusão ideológica, mas um estado depressivo crónico. Por isso, quando li no Público que, no Eurobarómetro sobre Saúde Mental, os portugueses são os maiores consumidores de anti-depressivos da União Europeia, não me surpreendi. No entanto, fiquei perplexo com a oportunidade do estudo. Aparentemente, este estudo está feito à medida da ministra Ana Jorge, que anda defender que os médicos não fazem uma prescrição racional destes medicamentos. Mas só aparentemente. Neste inquérito sobre saúde mental, um em cada sete dos cidadãos nacionais entrevistados admitiu que usou antidepressivos nos últimos 12 meses. Há quatro anos, um estudo feito pelo nosso Ministério da Saúde afirmava que um em cada cinco portugueses estava deprimido. Isto significa que a medicação funcionou e de vinte por cento passámos a 14 por cento de compatriotas deprimidos. Os nossos médicos psiquiatras estão a fazer um bom trabalho. Isto não tem nenhuma graça em particular. O engraçado é os números europeus, que são para os nossos políticos como encíclicas papais para os nossos governantes, provarem que há resultados positivos. O que não compreendo é por que razãoo Público apresenta esta notícia como um reforço para o argumento sovina da nossa Ministra da Saúde. A comicidade de tudo isto é agora, com a desculpa da crise, quererem inventar argumentos para poupar. Isto, sim, é que é deprimente. Gastamos uma fortuna em vacinas que ainda não sabemos para que raio servem e querem cortar em medicamentos que funcionam. Pela minha parte, prefiro que na minha casa estejam todos a tossir e a pingar pelo nariz a que ter de jantar todas as noites com familiares que só falam da melhor maneira de se suicidar. Uma pessoa a chorar causa-me mais incómodo que alguém a espirrar. As viroses fazem parte da humanidade. Mas já que vamos todos morrer, pelo menos não nos deixem morrer tristes. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:35
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