Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

Há já um tempo que fiz um acordo com a minha mulher para poder ver jogos de futebol que, curiosamente, a irritam profundamente. O acordo foi este. Por cada jogo que eu visse, ela podia escolher ver os programas de televisão que quisesse durante uma duração equivalente ao dobro de um jogo. Dito de outra maneira, por cada duas horas de bola, a minha mulher tinha direito a quatro do que lhe apetecesse. Aparentemente era um bom acordo para ambas as partes. Devo esclarecer que o acordo foi feito numa época em que os contratos televisivos eram outros e não havia assim muito futebol em directo. Percebi, pouco a pouco, que o negócio proposto por mim começava a não ser assim tão favorável. Tantas competições, tantos directos, tantas taças ganhas estavam a restringir muito a minha quota televisiva. Estava eu já em saldo negativo, com horas a dever, quando vieram os campeonatos do mundo. Aí começou o desastre e tornei-me um devedor só comparável ao nosso Portugal. Tentei renegociar a divida. Propus que a patinagem artística e os campeonatos de ginástica rítmica, de que a minha mulher tanto gosta, valessem tanto quanto os jogos de futebol, mas não consegui nada. Honrar a dívida tornou-se um pesadelo. Em vão, acendia o televisor quando dava um filme japonês ou do Manoel de Oliveira, para tentar convencê-la de que a ideia era dela, para compensar. Mas nada. Sair de casa e deixar o televisor aceso para fazer horas de vídeo computáveis foi outro estratagema que adoptei. Mas ela não saía do seu escritório e não dava por nada, negando assim qualquer contabilidade compensatória. Felizmente, a minha mulher é compreensiva e perdoou-me os juros. Mesmo assim, segundo as minhas contas, julgo que lhe devo dois anos, três meses e oito dias de livre escolha. Para amortizar a dívida, agora anuncio sempre que há um jogo e não vejo. Para que conte como pagamento, mesmo que ninguém ligue o televisor. Mesmo assim, acho que vou seguir o próximo Mundial pela rádio. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:37
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