Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

A discussão do orçamento foi adiada. Acho mal. Com a experiência que temos da retórica do Primeiro-ministro, julgo que a sua presença só atrapalha. Seria mais interessante que houvesse, ao menos uma vez, uma discussão mais técnica e menos afectiva. Discutir o orçamento não pode ser uma questão emocional. É como as pessoas que se divorciam e discutem sobre os bens materiais. É melhor que falem os especialistas. Mas pronto, já está feito. Entretanto, podemos observar as novas formas de luta que se estão a desenvolver em Portugal. Depois de insinuações sobre as motivações dos cortes que atingem os magistrados, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses requereu cópias dos documentos sobre autorizações para a utilização de cartões de créditos, telefones, despesas de representação e subsídios de residência relativos aos membros dos gabinetes ministeriais. É uma declaração de guerra em que se usam armas profissionais. O governo pode cortar verbas e os magistrados podem investigar as pessoas que as cortam. Cheira mal, mas não é ilegal. Por um lado, instrumentaliza-se a Justiça, e por outro, as vítimas usam o que têm profissionalmente à mão para intimidar. Em vez de fazer uma greve, que significa não trabalhar para protestar, protestam a trabalhar naquilo que deviam ter feito antes. É interessante. A Polícia, em vez de fazer as suas ridículas manifestações, podia fazer uma caça à multa dirigida aos membros do governo. Os médicos podiam pôr os doentes governamentais na fila de espera. Os taxistas podiam escolher o caminho mais comprido sempre que um deputado da maioria utilizasse os seus serviços. A Meo e a Zon podiam cortar “cirurgicamente” os serviços da Net e da televisão por cabo. Os funcionários das Finanças podiam dar mais atenção às contas de organismos oficiais e os seus dirigentes. Enfim, as possibilidades de protesto sem deixar de trabalhar são quase infinitas. Canalizadores, electricistas, porteiros, empregadas domésticas, secretárias… todos podiam protestar, trabalhando mais, mas com objectivos precisos. Ainda por cima, se calhar se tivesse sido assim desde o início de toda esta manigância nas contas públicas, nem teria havido necessidade de fazer o orçamento que se fez. Não sei. Não me parece uma atitude eticamente correcta, mas que tinha dado jeito, lá isso tinha. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:19
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