Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Depois das discussões sobre o orçamento apresentado pelo governo, o segundo tema mais falado foi a notícia da candidatura a mais um mandato de Cavaco Silva. Não tanto pelo anúncio, mas sobretudo e unicamente pela forma como foi revelada. Marcelo Rebelo de Sousa, conselheiro de Estado indicado pelo Presidente, comentador político mais ouvido na televisão, partidário do actual presidente e, provavelmente, se não é amigo pessoal ao menos algum sentimento deverá nutrir por Aníbal, foi quem deu a notícia na TVI. Foi com uma felicidade indisfarçável que anunciou, com pormenores invejáveis, dia, hora e local do acontecimento. Também se percebia um certo orgulho profissional. Algo do estilo, assim disse que devia ser, o homem concordou, agora embrulhem que quem anuncia sou eu. Julgo que estes sentimentos são humanos, normais e Marcelo tem razão ao dar-se estes gostos. Aliás, faz parte das duas coisas que mais gosta de fazer: ser o único quem sabe e que as pessoas cumpram as suas profecias. É o shangri-lá dos analistas políticos. Mas a sua satisfação é generosamente acrescida pelas reacções provocadas nos outros candidatos à presidência. “Insólito e aguardo confirmação” foi dito pelo candidato do PCP. A equipa de Manuel Alegre, apoiado pelo PS e BE, afirmou que, além de ser absolutamente insólito, é descarada a utilização de um espaço de comentário político para o anúncio da parte de uma candidatura. Defensor Moura, deputado do PS e candidato independente, admitiu ter ficado “surpreendido” pelo papel de “porta-voz” de Marcelo. Para Fernando Nobre, o anúncio parece “fazer crer que tinha o aval” do Presidente da República. Até Ângelo Correia disse estar "perplexo" com o anúncio, que classificou como um "erro" e "muito estranho”. O interessante destes comentários é que todos responsabilizam Cavaco de ter sido Marcelo a anunciar a sua candidatura. O princípio de “não matar o mensageiro” foi cumprido à risca por todos. Em todas estas cabeças, Marcelo foi utilizado ou está às ordens de Cavaco. Tanto uma alternativa como outra não me parecem perspicazes. Tenho a sensação esquisita de que, no fundo, ninguém se quer meter com Marcelo. Se for assim, Marcelo tem mais uma razão para ficar feliz. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:40
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