Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

Foi com certeza o acaso que fez coincidir as negociações do fim-de-semana entre o governo e o PSD sobre o Orçamento de Estado com o alargamento dos horários de domingo nos hipermercados. Ambos os acontecimentos têm apenas em comum a actividade comercial realizada em horários novos estendidos por horas em que não se trabalhava dantes. Não sei se as negociações orçamentais terão o mesmo êxito que os novos horários das grandes superfícies. Mas ao menos psicologicamente, as reuniões na Assembleia deram alguma esperança aos portugueses. Independentemente de ver a malta a trabalhar durante o fim-de-semana ter um efeito moralizador inequívoco. Já me aconteceu estar em países no dia a seguir a um novo governo tomar posse. Passar em frente aos ministérios e ver luzes até altas horas da noite nos diferentes gabinetes, provocava nos noctívagos comentários de admiração e confiança. “Não perdem tempo”, “entraram a matar”, “assim é que é” e outras observações similares. Não importava sem estavam ou não de acordo com as novas autoridades eleitas. Mas apenas a verificação do facto aparente de estarem lá, no lugar do trabalho, inspirava alguma simpatia. Infelizmente, estas actividades anómalas dos negociadores em horários extraordinários vêm com semanas ou meses de atraso. Mas também não podemos pedir tudo. Por outro lado, não devemos subestimar as aparências. Aparentam esforçar-se, parecem estar a tentar encontrar uma solução, aparentam estar a fazer agora o que parecem não ter feito antes. O resultado não vai ser espectacular. Com acordo ou sem ele, não temos razões para estarmos felizes. Contudo, saber que estão a trabalhar ao mesmo tempo que nós estamos a tomar anti-depressivos cria um laço afectivo. Eles negoceiam e nós aparentamos não enlouquecer. Pelo menos, não antes que cheguem a um acordo. Está certo. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:12
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