Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

De vez em quando aparece mais um estudo sobre o perigo das drogas. Todos estes estudos apresentam-se a si mesmos como imparciais e sem preconceitos. O último noticiado foi publicado numa revista médica chamada The Lancet. A originalidade deste trabalho é ter juntado os dados prejudiciais pessoais, doenças acarretadas pelo consumo, com os sociais, problemas de relacionamento e perigosidade ou violência. Com estes parâmetros chegou-se à conclusão de que o álcool é de longe o mais perigoso. Setenta e dois pontos no máximo de 100. Atrás está a heroína com 55. Alucinógenos como os cogumelos, festivos como o ecstasy ou narcisistas como os esteróides estão muito mais abaixo, cinco e nove pontos, respectivamente, na tal escala de 100. Tendo em conta a tradição ocidental, podemos afirmar que a nossa civilização foi construída com a droga mais perigosa que existe. Como pormenor anedótico, o relatório foi realizado sob a direcção do ex-consultor britânico David Nutt, que afirmou com alguma sensatez que é mais perigoso andar a cavalo que consumir ecstasy. Não discuto que todo o abuso seja potencialmente prejudicial. Mas achar que o crack ou a heroína que, diga-se de passagem nunca provei, é menos perigoso que o álcool parece-me demasiado avant-garde. Eu sei falar com um bêbado violento ou mesmo ressacado. Mas não tenho a menor ideia de como falar com um heroinómano ao pé de um multibanco com uma seringa ameaçadora no meu pescoço. Também não sei se entre os consumidores de crack existe o mau crack como há mau álcool que tão frequentemente encontramos em reuniões de amigos. Mas admito que os toxicodependentes sejam todos boas pessoas. Outra extraordinária conclusão de este estudo é ter declarado as benzodiazepinas e os ansiolíticos mais perigosos que os cogumelos, a metadona e o tal ecstasy. Não compreendo como pessoas que tentam controlar a ansiedade, ou têm dificuldade em adormecer são mais perigosas que um alcoólico cocainómano com esteróides, que deu uma passa de crack antes de se injectar com heroína. Com certeza foram os copos de uísque que tomaram depois do jantar. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:06
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