Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Sei tanto de economia como qualquer pessoa normal sabe de primeiros socorros. Também sinto o mesmo horror que todos devem sentir ante a obrigação de fazer respiração boca a boca a um desconhecido. Mas em questões de vida ou morte não podemos andar com mariquices. Em economia, é sabido que, nos tempos de crise, os biscates e as actividades paralelas, o chamado mercado negro – que provavelmente agora se chama afro-mercado – começa a crescer. O problema com esta economia paralela é o Estado não ganhar nada com ele e, por ser ilícito, não pode ser regulado. Se somos roubados ou aldrabados, não podemos recorrer a ninguém. Por exemplo, há branqueamentos dentários a laser que estão a ser feitos de forma ilegal em cabeleireiros, esteticistas, spas e farmácias. Podem representar um perigo para a saúde pública, segundo afirmou a Ordem dos Médicos Dentistas. Eu acredito, mas também é provável que alguns dos membros dessa ordem profissional estejam a fazer biscates nalgum instituto de beleza. Se fosse o caso, seria compreensível. Não me surpreendia que em consultórios particulares ou em firmas de advogados, estabelecessem discretamente uma espécie de happy hour para clientes de fracas posses. Quem deixaria de aproveitar um desconto de 50 por cento nos serviços de profissionais competentes, que com tarifas normais estão muito fora das nossas possibilidades? Esclareço que não aprovo nenhuma actividade ilícita mas sou sensível e posso compreendê-la. Outro aspecto da crise são os altos níveis de depressão a que as pessoas podem chegar. Por estes dias a Polícia Judiciária está a investigar casos de suspeitas de prescrição irregular de medicamentos anti-depressivos e anti-psicóticos. Julgo que está errado. Não conheço ninguém que tome anti-depressivos como droga recreativa nem anti-psicóticos por puro passatempo. Nestes tempos, a Polícia não se deve preocupar com aquilo que ajude as pessoas a viver. Deve-se deixar que tomem os seus medicamentos e se quiserem branquear os dentes no cabeleireiro, que o façam. São tempos de solidariedade. E se as pessoas ficam felizes e com os dentes imaculados, ainda melhor. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:43
Comentar

Arquivo do blogue
Subscrever feeds
blogs SAPO