Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

Se há coisa que temos em Portugal é amigos e familiares. Podemos não nos dar com alguns deles, mas não é por isso que deixam de ser menos família ou menos amigos. Se eu fosse nomeado para algum cargo, o mais provável era designar amigos para os postos em que a confiança é importante. Se esta virtude não fosse imprescindível para o bom desempenho do trabalho, inclinar-me-ia a nomear familiares. Mas isso sou eu. Outros preferiram fazer ao contrário. Não interessa. Por outro lado, se há algo que falta no nosso país, é empregos que valham a pena. Não é preciso ser um génio para saber a quem daríamos trabalho se este fosse o caso. Estou a fazer esta cátedra de direito laboral por causa daquelas nomeações de dois antigos sócios do Secretário de Estado adjunto das Obras Públicas para cargos de administração nos CTT. Este é um caso muito especial que, apesar de se enquadrar nos itens de dar com alegria trabalho aos amigos, tem a particularidade de terem sido sócios numa empresa de produção de espectáculo com o sibarita nome “Puro prazer”. A excepcionalidade deste caso é que a amizade dos intervenientes sobreviveu à empresa que outrora tiveram juntos. Isto é importante nos tempos que correm. Poucas vezes a amizade sobrevive a uma experiência dessas. Mais um motivo para não só concordar com a decisão do Secretário de Estado como também para homenagear amizade no seu gesto. Contudo, devemos pedir desculpa que esta situação se tenha tornado pública. Esta vaga de moralização produz um zelo inquisitivo desavergonhado. Temos de denunciar ladrões, não relações bem sucedidas nem lealdades partilhadas. Isso devia ser simplesmente, e à boa maneira portuguesa, ignoradas com admiração. Se o Secretário de Estado e o seu grupo cumprem o seu trabalho, devem ser um exemplo não um pecado. Temos de impedir que a falta de dinheiro nos torne invejosos. É sempre afortunado quem trabalha com amigos. Vergonha a quem denunciou esta amizade para tentar ficar com o lugar e querer, por sua vez, empregar os seus próprios amigos. É feio. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:26
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