Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

Ler nas entrelinhas das declarações ou atitudes dos políticos já se tornou um desporto nacional. Como em qualquer desporto, há situações fáceis e outras mais complicadas de interpretar. Uma mão de um jogador na própria área merece uma grande penalidade. Isto é óbvio. Em política seria concluir que Manuel Alegre não gosta de Cavaco Silva quando o candidato critica o Presidente porque não fala e o condena quando fala. Há outras situações em que compreender a intenção política será mais subtil. Por exemplo, quando Sócrates responde na Assembleia à deputada verde Heloísa Apolónia, por mais simpático que tente ser, somos capazes de perceber que não gosta do nome. Ainda há situações mais subtis, que só depois de muita reflexão, compreendemos. Quando Portas fala bem de Manuela Ferreira Leite está na verdade a falar mal de Passos Coelho. Há outras fórmulas políticas ainda mais perversas. Por exemplo, o Governo aprovou a tolerância de ponto para a próxima sexta-feira no concelho de Lisboa por "razões de segurança e, em especial, nas limitações à circulação durante o período da Cimeira" da NATO. É natural. Pouco depois, António Costa anuncia que os serviços da Câmara Municipal de Lisboa estarão abertos na próxima sexta-feira para assegurar o normal funcionamento da cidade. Repito “sexta-feira”. Já tivemos tolerância de ponto em dias mais confusos, como uma quarta-feira, por razões menos importantes como um jogo de futebol. Aqui detectamos um sentimento pouco amigável. Está bem que os funcionários vão trabalhar. O que duvido é que o publico apareça. Mas os sinais de antipatia com a Cimeira não acabam aqui. Em comunicado oficial, depois de explicar as razões da sua decisão, agradece ainda "a compreensão de todos perante os incómodos que sofrerão na decorrência dos constrangimentos determinados pelas autoridades nacionais". Aqui é que a porca torce o rabo. A responsabilidade dos inconvenientes não será da Câmara mas do governo. Eh lá! O presidente da Câmara de Lisboa e amigo do primeiro-ministro desmarca-se dos problemas de trânsito, de ruas interditadas, manifestações e de todas as confusões típicas das cimeiras. Será que António Costa está a piscar o olho ao PCP? Estará à procura de votos entre os pacifistas? Não acredito. Com certeza é uma retaliação por não ter sido convidado para alguma festarola natalícia. Fora isso, tudo bem.



Publicada por Carlos Quevedo às 23:09
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